Aos que virão!

Quer queiramos ou não, os mitos alimentam os nossos sonhos e justificam a nossa existência.
Este blog reverencia os mitos deste nosso Cariri Encantado.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Lançamento : Livro de Poesias



Autor - Wellington Alves ( Ton-Ton)

Apresentação : J. Flávio Vieira
Performance / Leitura de Poemas :
Luiz Carlos Salatiel



Data - 24 /11/11 ( Quinta-Feira)
Local : Auditório do SESC / Crato
Hora - 19 Horas

domingo, 20 de novembro de 2011

A flor atirada - Emerson Monteiro

A história de um místico árabe conta que enquanto se via apedrejado em sacrifício das práticas religiosas que professava, contrárias que foram à tradição dos poderosos, ele observou cair aos seus pés bela flor atirada junto com as pedras da turba ensandecida. Até ali resistira com altivez aos gestos rudes da multidão formada de criaturas ignorantes no trato com a mensagem salvadora que oferecera.

Nessa hora, contudo, sentiu fraquejarem as forças, e viu-se rendido dominado de pranto convulso. Daqueles despreparados, que exercitavam instintos vingativos, outra atitude jamais esperaria além de jogarem pedras para ferir corpos e eliminarem existências físicas. De quem jogara a flor, porém, que, então, demonstrava conhecer algo mais a propósito dos ensinos e das práticas fiéis, aguardava maior sinceridade, no mínimo saindo na defesa dos ideais superiores. Negara, fraquejara, isto sim.

Às vezes sentimentos de nostalgia sujeitam atingir pessoas que sentem a força da autenticidade, ainda que distingam o tanto que lhes resta de chegarem às relíquias sagradas, assunto principal dos religiosos.

Existem situações em que discípulos deixam de lado a prática do Amor para aceitar fugas de lazer, esportes, vícios e acomodação. Nisso, esquecem a coerência e os pressupostos que adotam em nome do caminho de Deus, demonstração de abandono e pouca sinceridade interior que deixam patentear.

Aquele que jogou a flor no instante no martírio do árabe lapidado, mesmo que pretendesse cumprir gesto de solidariedade e reconhecimento na hora extrema do testemunho, permaneceu vinculado às sombras da covardia, sabedor de conceitos, no entanto sem praticá-los de verdade.

Não poucos agem de qual jeito, motivo, inclusive, da parábola do festim de bodas contada por Jesus, dos muitos chamados e poucos os escolhidos. Chamados às hostes do Bem todos somos. Raros, talvez raríssimos, exercitam a feliz oportunidade, razão das dores de saber o quanto adiante ainda sofrerão presos àas malhas pegajosas de transes imediatos.

Invés de jogar flores nas homenagens tardias, caberá cultivá-las no íntimo do coração e exalar o justo perfume através dos campos do dever.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ficando no prejuízo


Chegou em casa e a mulher estava tiririca. Sabe-se lá como diabos ela descobriu a tramóia ! Devem ter sido as outras, pensou em meio à ressaca fenomenal, a classinha é extremamente solidária, quando são amigas contam tudo que viram ( sempre com algum acréscimo), em nome da dignidade feminina, quando são inimigas o fazem para ver o circo pegar fogo e deliciar-se de longe com as labaredas. Tinha tramado tudo, nos mínimos detalhes, durante uns dois meses. A mulher era uma fera: para cascavel só faltava o guizo. Pediu, com antecedência, para que a Grendene o escalasse naquela horário nobre que vai de uma hora da manhã até às oito horas do dia seguinte. Sapecou uma estória que estava a perigo e necessitava do adicional noturno. Os colegas desconfiaram daquela predileção de tetéu, justamente no mês de julho mas engoliram com alguma careta a justificativa . No finalzinho de junho já avisou à mulher da novidade. A patroa estrebuchou, logo no mês de férias dos meninos, no mês da EXPÔ/Crato, aquela notícia pouco auspiciosa! Mas empresa é assim mesmo mulher, quem quiser que se enquadre, senão a porca torce o rabo ! Guilhermina( assim chamava-se a crotálica esposa) destilou algum veneno, mas terminou por entender ,a contragosto, as razões apresentadas e abrandou o coração ao imaginar as possibilidades comerciais do adicional noturno. A partir daí o fojo estava armado e precisava só um ou outro ajuste, a sintonia fina do piau. Pois bem, chegada a EXPÔ/CRATO , foi uns dois dias com a serpente, digo esposa, e os filhos dar uma olhadinha nos bichos de dois e quatro pés e os meninos rodaram no parque. Tudo com muito comedimento que assalariado não pode se dar ao prazer de beber cerveja de três reais e refrigerante de um e cinqüenta, não ! Estribuchou mas não houve jeito, teve que cair na ratoeira da carestia que lhe disseram foi armada por causa de uma tal de terceirização e que por isso mesmo todos os preços , no Parque, foram multiplicados por três.Fez tudo isto com desvelo , o cuidado e a atenção para com a família fazia parte do plano que projetara. Na segunda de Exposição, chegou com cara amuada em casa , fingindo-se aborrecido e avisou à sua serpenteante mulher que a folga programada para a Sexta-Feira tinha sido cancelada por conta da doença de um colega que entrou com atestado.Ela resmungou, reclamou e ele, estrategicamente, somou suas lamúrias às de Guilhermina. A partir daquele momento puxara o cão para posição de tiro, o projeto encontrava-se na sua fase final de implantação. Na sexta, por fim, saiu de casa por volta das 11 da noite, pronto para o trabalho. Fingiu cansaço e partiu. Dobrada a primeira esquina, escapuliu ladinamente para uma bodega da caixa d´água, onde a turma já o esperava e encheu a cara de cana e não de “loura gelada”, conforme mandava o momento. Dali , enfiou um chapéu de palha grande na cabeça e partiu para o show do RPM. Foi uma noite e tanto. Arranjou uma moreninha torada no grosso, de pernas curtas mais roliças e dois air-bags de segurança e resolveu exercitar a última invenção dos novos tempos, coisa que sua geração jamais experimentara: o “Fica”. Ao amanhecer nem lembrava bem o nome da sua “ficante”, em homenagem ao RPM , lembrou-se dela sob o epíteto significativo de “Stefanie de Mônaco”.

Mal entrou em casa, no entanto, mal disfarçando o fim da embriaguez misturado com o começo da ressaca, aquela surpresa. Nem o FBI, nem o SNI, nem mesmo o MOSSAD conseguiriam tamanha agilidade na espionagem. Guilhermina saltou de lá, com a língua bífida e armou bote. Ele ainda tentou criar algum álibi, alguma estória paralela mas desistiu aí por volta da quinta lapada do cepo de carne no pé do toitiço.Recobrou os sentidos três dias depois na UTI do São Francisco, todo enfaixado: só os olhos de fora. Pensou ainda em dar parte da mulher, mas não existe delegacia especializada para homem agredido por esposa e, além do mais, estaria exposto definitivamente à execração pública. Quando o médico veio para visita perguntou o paciente sobre o atropelamento, imaginou que esta tinha sido a versão apresentada por Guilhermina, quando do internamento e manteve a versão. Disse que tinha sido uma moto que ziguezagueva na pista, próximo da sua casa ou uma cobra venenosa que o tinha mordido. O médico informou então que ele sofrera um traumatismo encefálico, mas encoontrava-se bem, estava pensando inclusive em dar alta, mas dependia tudo dele :

---- O senhor ainda deseja Ficar ??

O paciente levou as duas mãos enfaixadas até à cabeça inchada e, com aqueles olhos roxos, de guaxinim, suplicou :

---- Pelo amor de Deus, doutor, nunca mais eu quero Ficar nesta vida, viu ?

J. Flávio Vieira

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quilômetros de engarrafamento - Emerson Monteiro


Início do feriadão da República e noticiários indicavam até 245 km de engarrafamentos na saída de São Paulo ao litoral, com televisões mostrando filas imensas de veículos de faróis acesos às margens do Rio Tietê. Lembrei quando vivi em Salvador, ainda na década de 70 do século anterior, e do tempo que gastava, nos finais de semana, à espera de embarcar no ferry-boat a caminho da Ilha de Itaparica, onde curtíamos horas de lazer à beira mar.

Todos, neste mundo, buscamos a salvação da alma, conceito religioso que admite existência além do tempo deste chão... Chegaremos, um dia, à santidade, na chance da perfeição absoluta de superar o limite das experiências materiais.

E ao observar o sofrimento comum a todo vivente, calculamos a perspectiva das oportunidades para crescer interiormente em face dos testes agora recebidos.
Essa prova mesma dos engarrafamentos das grandes cidades, hoje em dia, quer representar das experiências severas a que o espírito se submete, porquanto horas e horas dentro de automóveis feitos gaiolas de luxo, aguardado deslocamento milimétrico, e depois retornar sob iguais condições, não deixa de comprimir a paciência da alma ao extremo, lição importante de constrangimento e realidade, no apuro das naturezas dos indivíduos.

Habitantes de metrópoles, eles sofrem miséria no sentido de sobreviver às oportunidades restritas, nessa escola aberta dos aglomerados e moradias reduzidas; nas arbitrariedades artificiais do sistema rígido das calçadas de ferro e cimento; em fábricas desumanas, mecânicas, automáticas; no atrito entre as pessoas; nos transportes abarrotados; na solidão das multidões indiferentes; nos descansos esfumaçados e tristes das janelas escuras; universo melancólico de jornadas industriais que parecem nunca revelar finais possíveis.

Santos em potencial são todos, contudo há os que adiantam o carro mediante respostas sábias à gravidade dos bloqueios e traumas das histórias grupais, sem um jeito melhor quase hora nenhuma. E lembrar, ainda, o quanto padecem das ingratidões de semelhantes que explodem desencantados, no decorrer do processo coletivo de evoluir, nas manadas reunidas e saraus barulhentos das noites aflitas.

Tudo isso lembra, pois, o tanto necessário aos dias felizes, no itinerário do drama que guarda em si as sempiternas esperanças dos dias quando, suaves, as ruas do destino ofereçam instantes de deslocamentos harmoniosos e justos.

sábado, 12 de novembro de 2011

Aceitação - Emerson Monteiro

... Uma reação igual e em sentido contrário, princípio da Lei de Ação e Reação. Depois que acontecer de pisar na bola, cabe aceitar as consequências. Conciliar as respostas naturais em relação aos atos de seguir em frente, atitude por demais justa consigo mesmo, ser falível no estado atual. Caso diferente, agiria como que treme diante das circunstâncias, o que nada representaria em termos de racionalidade; o errar só para não dar a mão à palmatória.

Baixar a cabeça depois que falhar nas escolhas das ações, ainda que pela ignorância de conhecer o jeito exato de cumprir o papel perante a vida, eis o modo espontâneo de se render às evidências. Levantar a cabeça pode reduzir os prejuízos e abrir um espaço de perdão dentro da gente, isto no sentido de evitar danos à saúde física e abrir mão das vaidades; deixar de lado a suposição antiga de se ser senhor absoluto da razão.

Quantas e tantas vezes o errar humano pisar no território da solidão... Contar apenas com os elementos de quem ousa sonhar demasiado com a perfeição e cai da cama... Se achar acima do bem e do mal, quando Deus impera acima dos seres menores, Sua criação apenas... Nós, os viventes...

Viver a vida sem se punir a todo instante... Quando o sucesso domina a cena, as pessoas vibram de euforia. No entanto, perante as cobranças dos erros, afundam na lama quais juízes impiedosos de si, cruéis parceiros da autovingança. E dói e mata e pune contra as ordens mínimas da compaixão.

Aceitar a condição de relativos nas malhas humanas; admitir a retratação, invés das normas rígidas do combate interno às inferioridades, doutores de leis impiedosas e totalitárias. Persistir vivos para preservar a espécie dos aprendizes, senhores da fé nos dias melhores. Render homenagem ao impossível, em noites e dias sempre adoráveis. Ninguém é o senhor do destino além do Poder superior aos poderes limitados deste mundo. Existe o conceito da religiosidade natural que demonstra ordens eternas que a tudo comanda.

Haverá meios de reagir às trevas, aos tombos, às turras, atabalhoadamente... Haverá, sim; nenhuma dúvida resta. Creio, entretanto, significar apenas desespero e frustração assumir o erro e querer eliminar à força as consequências, modos de desencontrados exércitos perdidos em retiradas infames, que as histórias contam. Que glória há nas perdidas as ilusões? Também as personagens individuais, que andam pelas ruas, equivalem aos exércitos de si próprios, por vezes batendo cabeça em jornadas dolorosas. O fazer nesses instantes pede alternativas de sabedoria. De deixar de lado os valores equivocados e marchar firmes para os verdes campos da satisfação interior, no amar e se amar quais motivos da experiência, esquecendo vícios e abandonos, mágoas e rancores. Sorrir aos instantes menos felizes, que somem e deixam o perfume da solidariedade, resposta indiscutível de viver bem.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Show "Traduções Cariris" abre a XIII Mostra Cariri das Artes


A mais importante semana do ano no Cariri começa hoje !

A festa começa com a apresentação do Tradições Cariris, marcado pela interseção entre as tradicionais batidas dos Zabumbeiros Cariris e a união de músicos emblemáticos da região como Abidoral Jamacaru, Luiz Carlos Salatiel e João do Crato.

O som do grupo conta ainda com os teclados e a sanfona de Ibbertson Nobre, a bateria de Saul Brito e o baixo de João Neto.


Simbora !

Local : Praça Padre Cícero - Juazeiro do Norte

Hora - 20 H

Data - 11/11/11

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Próteses

Cacildo entrou no Bar com aquela cara de “Inhá, comeram meu cuscuz!”. Os amigos perceberam, facilmente, que o homem andava ruim da piraca. Nos últimos tempos, invariavelmente, tinha sido assim: assuntava mais , dava palpite de menos. Os colegas de balcão haviam notado claramente a mudança de humor. No fim do expediente reuniam-se ali no barzinho para remoer as últimas novidades e contar as vantagens que , tirante uma ou outra mentira, saltavam mais do pretérito que do presente. É que a turminha já quebrara a barreira do som dos sessenta e as histórias eram cada vez mais reprises . O diabo é que Cacildo até varara bem as idades de rombo : 40, 50, 60. Aparentemente não tivera crises maiores e sempre pareceu conformado com a ferrugem inexorável do tempo : algumas coisas endurecendo, outras amolecendo e , pior: sem ninguém ter o privilégio de escolher quais deveriam ter uma ou outra consistência.

Que sovela perfurava, então, o juízo de Cacildo ? Como protético sempre levara uma vida tranqüila. Varava os dias em meio a bridges e pererecas : clientes não lhe faltavam. Não enricara, mas aprendera a viver dentro do orçamento, sem maiores atropelos. Não tivera filhos e, assim, não diminuíra os dias tentando domar o indomável. D. Celidônia, a esposa, era um doce de pessoa. Não o atanazava, não colava no pé de Cacildo feito Araldite . Kardecista de carteirinha, aceitava todos os defeitos do marido de bom grado. Na outra encarnação – dizia ela -- havia sido sogra dele e , agora, precisava ,sim, seguir seu karma. Ademais, Celidônia não tinha muito do que se queixar. O marido era o protótipo dos esposos dos Anos Dourados : sistemático, quadrado como um dado, palavra sua talhava no granito. Não tinha vícios maiores, apenas era chegado a um namorico fortuito, à porta de um cabaré : coisa que na sua geração era perfeitamente perdoável. Esposa era para ter menino: fornicar com a mãe dos próprios filhos era coisa de tarado. Os companheiros de tantos anos, assim, não conseguiam encontrar um nexo causal entre o cotidiano e o ensimesmamento repentino do nosso protético.

Passados uns seis meses, os colegas de Bar, que até então tinham agido como se nada acontecesse, começaram a se preocupar. Resolveram, então, fazer o “cerca Lourenço”. Arrodiaram a fera , com cuidado : como quem toma chegada prá matar passarinho. Esperaram o momento certo para o ataque final e, num sábado, após a sexta dose de uísque de Cacildo, finalmente chegaram no corrupio. Arrocharam pouco a pouco a prensa, até que o amigo soltou a frase introdutória do desabafo :

---Esse mundo tá virado de cabeça para baixo ! Tá tudo às avessas ! E eu que pensava que fazia próteses ! Não existe nada mais natural nesse mundão, só prótese prá tudo quanto é lado !

Puxaram dali, esticaram dacolá e depois do mote, finalmente Cacildo soltou a glosa. Há uns dois anos começara um namoro com uma mocinha. Ela fora lá na oficina encomendar uma chapa para a mãe. Tinha uns vinte e poucos anos. Conversa vai, conversa vem, prova daqui, prova dali, terminaram com um romance. O cavalo velho lambuzava-se no capim novo e criara alma nova. A auto-estima subiu como foguete em dia de renovação. Ainda era um garanhão, debaixo daquelas cinzas ainda existiam brasas que se sopradas davam labaredas vultosas -- pensou Cacildo, entre dentes . Passados os dias , Minervina – assim se chamava a menina --- queixou-se das condições em que vivia e insinuou uma ajudazinha. Cacildo prontificou-se a mantê-la. Uma vezinha, só ? Aquilo não custava nadinha. Mas o eventual transforma-se em permanente, com os meses, o subsídio terminou por ficar regularíssimo.

Aí pelo segundo mês de enrabichamento, Minervina lhe sussurrou uma confidência: tinha um namorado já há uns dois anos e o namoro era sério. Cacildo , no início, ficou meio chateado com a novidade. Depois, no entanto, bateu-lhe aquele orgulho besta :

--- Ora bolas, sou eu que estou botando galha nele, né ? Ele que se vire e agüente as pontas !

Pois bem, depois da revelação, uns dois ou três meses passados, Minervina esperou o momento pós-êxtase e lhe soprou na cama redonda do motel: O noivo dela tinha marcado o casamento para a próxima semana. Cacildo ficou meio desapontado. Mas que jeito? Avisou, então, a Minervina que aquele tempo que haviam passado junto tinha sido muito legal, mas agora estava no momento de pôr um ponto final em tudo: casamento é coisa séria, Miné! Ela pareceu também meio perdida, mas terminou por concordar. Era melhor assim ! Cacildo passou os dias seguintes com aquele sentimento dúbio : meio-alívio-meio-saudade.

Transcorridos uns quinze dias da data marcada para o enlace, Cacildo estava fechando a oficina, no fim do dia, quando chegou um rapazinho e disse que precisava falar com ele. O protético imaginou fosse alguma encomenda de última hora. Reabriu a porta, já parcialmente fechada, e sentaram-se . Logo no início da conversa, Cacildo empalideceu. Pelo andar do lero-lero, compreendeu : Era o marido de Minervina ! Concluiu que tivesse descoberto a antiga sociedade e vindo para o ajuste de contas. O rapaz, no entanto, calmo explicitou um outro e inimaginável problema:

--- Meu nome é Renildo . O senhor namorava com minha atual esposa, não era? Eu sabia de tudo e até curtia! O bom é que o senhor ajudava com uma graninha. Todo final de semana , a gente podia sair e curtir: um forrózinho, uma lapadas . Depois do casamento , o senhor acabou tudo e agora, seu Cacildo, tá uma barra! Eu queria ver se o senhor volta, acaba com essa besteira e continua tudo do jeito que tava !

Passada a surpresa, o protético recobrou o fôlego e o sangue na cara e concordou. Mantiveram o ménage a trois por uns três anos. Um belo dia, final de expediente, entrou uma mulher estranha na loja. Ombros largos de nadadora, andar de lutador de MMC, boné na cabeça. Com voz de barítono foi direto ao assunto. Minervina havia se separado do marido e agora estava vivendo com ela. Estava indo ali para dizer que ficasse na dele, não precisa mais de ajuda, Minervina agora estava sob nova administração e ameaçou:

--- Se se meter com ela, venho aqui e quebro seus dentes, entendeu ?Ou não me chamo Irismar ! Você é que vai precisar de chapa, seu merda...

Cacildo , passado o susto, respirou fundo . Que jeito? É dançar conforme a dança! --- pensou ele com suas pontes ! Passaram-se uns dois anos sem que tivesse surgido notícias do novo casal. Semana passada, encontrou com Minervina na rua. Estava mais velha e mais bofona .Disse, com voz grave, que a vida estava um inferno, que tinha acabado o casamento com Irismar, por conta de ciúmes e pediu, em lágrimas, uma ajuda do ex-amante. Estava tentando refazer a vida, mas a coisa estava difícil. Acredite:

-- Estou inclinada a voltar para o Renildo, está novamente rolando um clima. A questão, Cacildo , é que ele só me aceita com uma condição : seu eu fizer a cirurgia para mudança de sexo. O senhor me ajuda a pagar? Por minha felicidade? Pelos velhos tempos?

O protético, sem entender o rumo da conversa, interroga:

--- Mudança de sexo ? Mas você é mulher, Minervina! Teve uns lances aí com aquela sapatão, mas é mulher !

Minervina, então, esclareceu tudo, trazendo Cacildo para os novos e confusos tempos -- mais próteses, menos de realidade:

--- Sou, Cacildo, mas aí é que tá o problema! Renildo agora é gay ! Assumiu !


J. Flávio Vieira

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Euclides do Crato : O Geômetra Político de Chico Mendes


“Não há nada como o sonho para criar o futuro.

Utopia hoje, carne e osso amanhã.”

Victor Hugo


Chico Mendes virou lenda. Nascido em 1944 em Xapuri, no Acre, seu nome sedimentou-se, historicamente, na luta pela preservação da Floresta Amazônica. Sindicalista, Seringueiro, Ativista Ambiental, Chico ficou eternamente lembrado, em todo mundo, por sua intransigente luta contra a vil e escravagista exploração do trabalho rural , na Região Norte do Brasil. Ainda criança viu-se imerso no expropriador Ciclo da Borracha, onde levas de pobres seringueiros viam-se lanhados pelo poder do capital ,da mesma forma com que as seringueiras eram talhadas para a extração do leite.

Iniciou a vida de líder sindical , tardiamente, aos 30 anos, como Secretário Geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Já a partir de 1976, participou dos famosos “empates” que eram pacíficas manifestações dos trabalhadores impedindo os desmatamentos , quando colocavam os próprios corpos para proteger as árvores. Além de ações em defesa dos nativos na posse de glebas de terra numa região historicamente infestada de latifúndios. Participou , depois, da fundação do Sindicato dos Trabalhadores rurais de Xapuri e elegeu-se vereador pelo MDB , ali já começaram as ameaças de morte contra ele. Não bastasse isso, em plena ditadura militar, vê-se acusado de subversão e é preso e torturado. Foi um dos fundadores do PT e um dos dirigentes do partido no Acre. Por influência dos fazendeiros, é incluído na Lei de Segurança Nacional, sob falsa imputação de assassinato de um capataz de fazenda, sendo absolvido no decorrer do processo.

Em 1981 assume a Presidência do Sindicato de Xapuri, cargo que ocuparia até o fim dos seus dias. Em 1985, Chico liderou o I Encontro Nacional dos Seringueiros, quando foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) que ganhou fama internacional com a proposta da “União dos Povos da Floresta” que unificava propostas de seringueiros, castanheiros, pescadores, indígenas, quebradores de coco babaçu e ribeirinhos, com a criação de Reservas Extrativistas.

Em 1987 leva denúncias sobre a devastação da Floresta a fóruns internacionais, conseguindo bloquear o financiamento do BID a projetos de destruição ambientalista. Recebe inúmeros prêmios internacionais por sua luta em defesa do Meio Ambiente, entre eles o Global 500 da ONU. Após a desapropriação de terras e a criação das primeiras Reservas Extrativistas, aumentam as ameaças à sua vida. Era uma Morte Anunciada. Em 1988, aos 44 anos, tomba sob os tiros de escopeta dos fazendeiros Darly e Darcy Alves da Silva. Após o assassinato, mais de trinta entidades se reuniram para formar o Comitê Chico Mendes. Mataram o homem, não arrefeceram sua luta, até 2006 , mais de 43 Reservas Extrativistas já tinham sido criadas, abrangendo mais de 8,6 Milhões de Hectares e abrigando mais de 40.000 famílias. Com Chico Mendes, o Brasil inteiro despertou para um olhar ambientalista, como até então nunca tinha acontecido.

Quase todos têm uma clara dimensão do legado de Chico Mendes. Ficava sempre no ar, no entanto, uma incógnita. Como se formou politicamente o Líder Sindical? Nascido numa região, à época esquecida do mundo, sem escolas, a única escapatória do pobre era o extrativismo do látex. A indústria de extração era centralizada numa elite feudal que explorava os trabalhadores até a última gota. A ausência de educação formal para os seringueiros era por si só uma técnica que tinha o fito claro de impedir o crescimento político dos seringueiros. Aquilo não interessava ao patrão, primeiro porque afastava as crianças do trabalho, diminuindo a produção e , por outro lado, abria um perigoso campo para o conhecimento do mundo e futuras e inevitáveis reivindicações. Não sabendo ler nem contar, abria-se a perspectiva da expropriação, da dissimulação. O seringueiro estava sempre devendo, dizia o próprio Chico na sua biografia. O Acre, o Brasil, o Ambientalismo brasileiro mudaram devido a um desses acasos imprevisíveis, desses toques da sorte que, imediatamente, os mais crédulos debitam a forças superiores.

Segundo Chico, em 1962, aos 18 anos, ele enfurnado no seringal, era completamente analfabeto. Pois um dia , chegou no seu barraco um seringueiro diferente, com um outro linguajar e que terminou impressionando toda a família. Aos poucos ganhou a confiança dos companheiros e interessou-se por Chico, oferecendo-se para ensiná-lo a ler. O pai concordou e aí, todo sábado, nosso futuro líder sindical caminhava três horas , mato a dentro, até o barraco do mestre, onde , não tendo cartilhas, usava jornais velhos para alfabetizar o nosso Chico. Aos poucos, o aluno foi aprendendo as primeiras letras. Muitas vezes as aulas varavam noites e , aos poucos, o professor foi introduzindo e discutindo notícias políticas dos jornais.

Só depois de um ano, segundo o próprio Chico, o mestre se identificou. Chamava-se Euclides Fernandes Távora. Era Tenente do Exército e havia participado, junto com Luiz Carlos Prestes , da Intentona Comunista de 1935, ele e inúmeros outros colegas de farda. Depois da débâcle, fora preso com vários outros em Fernando de Noronha. Ele, no entanto, tinha vários parentes importantes do outro lado. Era sobrinho de Juarez Távora e sob a influência do tio, conseguiu fugir da Ilha, vindo para Belém. Ali participou de um outro Movimento que tinha a influência do Major Barata, terminando por ser novamente preso.

Fugira novamente , agora para a Bolívia. Ali, já na década de 50, Euclides participou de movimentos de Resistência de operários bolivianos e mineiros. Houve grande repressão por lá também e, no pega prá capar, ele novamente escapuliu , embrenhando-se na selva boliviana , terminando por atravessar os seringais e vir bater ali no Acre, estabelecendo-se na Fronteira do Brasil. Ali mesmo, imerso na floresta, travestido de seringueiro, foi que Euclides Távora conheceu Chico Mendes e fez com que mudassem os rumos do Sindicalismo e Ambientalismo brasileiros.

É ainda o próprio Chico Mendes quem disseca cuidadosamente como o professor , aos poucos, o foi conduzindo pelos ínvios caminhos da política brasileira. Lia as colunas políticas dos jornais e discutia com o aluno , cuidadosamente, o que estava por trás das letras frias. Após o Golpe Militar de 1964 , então, os ensinamentos políticos se intensificaram. Euclides conseguiu um Rádio e junto com Chico ouvia os programas em português da “Voz da América” , A “BBC de Londres” e a “Central de Moscou”. As discussões furavam as madrugadas : por que essas rádios tinham versões tão diferentes sobre o mesmíssimo Golpe Militar ?

As lições estenderam-se até 1965, quando Euclides reforçou a importância do Movimento Sindical na resistência à ditadura estabelecida e reafirmou o otimismo quanto ao aparecimento de novos sindicatos e novas lideranças. Segundo Euclides, era preciso entrar nas organizações sociais todas eivadas de pelegos, pois só havia condições de mudar o status quo através de um trabalho interno, que remexesse as entranhas do monstro. O final da história é do conhecimento de todos.

O mais interessante, amigos, é que Euclides Fernandes Távora, segundo o próprio Chico Mendes revela na sua biografia, era cratense. Seu pai , Joaquim Távora, aqui morou por muitos anos e, segundo informações de Chico, todos os filhos teriam nascido aqui. Joaquim Távora procedia de Jaguaribe, onde teria nascido na Fazenda Embargo. Era Joaquim filho de um outro Joaquim : Antonio do Nascimento e Clara Fernandes da Silva Távora. Este casal, além do pai de Euclides , foi pródigo em filhos importantes ao Brasil : Juarez Távora, um dos líderes do Tenentismo de 1922 e candidato à Presidência da República em oposição a Juscelino Kubistchek ; Manoel Fernandes Távora , médico e depois Senador, que estudou no Seminário São José, em Crato e aqui clinicou por todo ano de 1903. Manoel inclusive trabalhou no Amazonas e Acre, razão possível da escolha da Região Norte por Euclides, após a Intentona Comunista. Sem falar em outros Távoras igualmente ilustres: Dom Carloto Távora, Bispo de Caratinga em Minas Gerais; Monsenhor Antonio Távora; o Desembargador Elisário Távora e o advogado Belisário Távora, estes últimos tios, pelo lado materno, do pai do nosso Euclides.

Depois de 1965, não conseguimos qualquer informação sobre o paradeiro do nosso Euclides Távora, o cratense mestre do grande Chico Mendes. O certo é que como um Nostradamus ele , visionariamente, parecia antever o futuro. Previra que os anos de chumbo durariam de 10 a 20 anos, que o movimento sindical se organizaria e que se a Ditadura Militar pensava que humilhando, torturando e cortando o movimento libertário, o exterminaria, estava redondamente enganada. Podava apenas os galhos, as raízes germinariam como por encanto e o povo organizado aspergiria as novas sementes ao vento e, em breve, o Brasil seria um grande “empate” contra a opressão e a injustiça social. Euclides sabia que o sonho e a utopia são apenas um dos estágios da realidade : como a pupa e a borboleta.

J. Flávio Vieira

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

As luzes na visão - Emerson Monteiro


Quando o Sol nasce traz de dentro de si todas as cores para gregos e troianos contemplar numa admirável percepção. Independente do gosto das criaturas, clareia sem discriminação; brilha sobre maus e bons, luz intensa sobre as mais diversas e surpreendentes histórias. Mostra o filme das existências, isto livre de impor, a quem quer que seja, sua vontade poderosa, possibilitando a experiência viva do valor do olhar de todos.

Com isso, a chance de utilizar essa capacidade ofertada pelas tantas oportunidades indica o quanto resta aprender diante das películas exibidas no cinema esplendoroso da natureza humana. São as lições dos sonhos múltiplos, a generosidade que desenvolve o transcorrer dos filmes exibidos sem parar, sessão interminável. Hoje, uma superprodução a cores no jeito de Cecil B. DeMille e seus épicos imorredores tirados das páginas bíblicas. Amanhã, episódios em preto e branco dos contos de Edgar Allan Poe, recheados de surpresas e mistério. Na sala imensa os motivos mil para olhos abismados ganhar contornos variados, nos detalhes e no todo.

Caminhar, pois, ao sabor dos muitos instrumentos, a fim de melhorar qualidade, na mesa dos apetites vindos ao nosso gosto na função dos elementos. Buscar carinhosamente aprimorar esse saber pessoal diante dos meios, os valores individuais, eis o que praticar, invés de exigir dos outros. Descobrir no próprio ser as escolhas e realizar os instantes com sabedoria e bom gosto.

Conquanto o filme insista continuar todo tempo na tela do presente individual, cabe utilizar o enredo em proveito do aprimoramento, através das boas práticas adotadas. Ver o bem que queremos ao mundo inteiro, dentro de nós, através das lentes do enxergar, até que possa permitir crescimento amplo do amor, estilo inigualável onde nada muda se nós não mudarmos, qual ensinam os professores.

Além de tudo, há que continuar a projeção nas consciências, independente de questões particulares. As luzes das manhãs sempre chegam fortes à razão e ao sentimento e selecionar o que assistir só depende desse gesto das predileções do espectador, na visão mágica que se movimenta aqui em nossa frente.