Aos que virão!

Quer queiramos ou não, os mitos alimentam os nossos sonhos e justificam a nossa existência.
Este blog reverencia os mitos deste nosso Cariri Encantado.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Qualidade musical - Emerson Monteiro

Ao ler, na Folha de S. Paulo, edição on-line do dia 29 de dezembro, a relação dos 50 álbuns que formaram a identidade musical brasileiro dos anos 2000, algo me vem ao sentimento de que, parafraseando o escritor Machado de Assis, ou a música mudou ou mudei eu. Quero crer, simplesmente, que houve uma exaustão na produção e quase desapareceram por inteiro os pontos de contato que acompanharam de perto a minha ligação com a música, nas cinco décadas anteriores, desde quando me entendo de gente.
Ainda bem que, hoje, vistas as facilidades oferecidas pela Internet, podemos ouvir e gravar todo o universo das produções que ficaram para trás. Mas a relação desses 50 álbuns da Folha de S. Paulo serviu para mostrar o quanto a música popular brasileira mudou, com relação ao que se ouvia há bem pouco tempo. Na lista, aparecem cantores e ritmos variados, nos estilos axé, sertanejo, brega, revelações, samba, reggae, bahia, rap, rock, que fizeram, e talvez ainda façam, a cabeça dos apreciadores, sem, contudo, afagar no mínimo os brios de quem adota o formato tradicional ou as harmonias menos apelativas que vieram depois.
Sei, no entanto, que a música representa a trilha sonora das gerações, por isso o instinto da particularidade, o gosto só pessoal. Existem aqueles que classificam as produções musicais em dois blocos, o das músicas de que gostam e um outro, o das que não prestam. Contudo nada é bem assim, pois seria apenas preconceito, discriminação de gerações.
Num ângulo menos drástico, porém, o olfato auditivo classifica o que toca o coração e sabe por instinto distingui as peças que mais parecem barulho gravado em disco mais para tocar nos fundos de carro e nos bares zoadentos, sem o devido respeito ao gosto de quem quer paz. Ninguém possui ouvido absoluto, entretanto ruído e música se distinguem numa classificação de ritmo, harmonia, sensibilidade auditiva, efeitos ambientais, respostas coletivas. Estudos indicam até que as crianças no útero materno, as plantas e os animais respondem aos estímulos musicais.
Wladimir Lênin, dos principais comandantes da Revolução Russa de 1917, num dos seus livros, afirma que a Estética será a Ética do futuro, o que vale dizer que o belo traz regras fortes à vida, ao ponto de determinar, no gosto que reflete, a sobrevivência de valores e preservação da ordem social. As vivências do que é belo intuem no cidadão o seu código de existência, aumentando-lhe o próprio ordenamento, seja na família, nas instituições e em si próprio.
A boa qualidade artística dos tempos, em si, faz a história das sociedades e o grau de maturidade com que trata as oportunidades. Épocas e sociedades têm sua música que fala do inconsciente coletivo dos que ali vivem, portanto.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Hábitos bons - Emerson Monteiro

Andei percorrendo o juízo na busca de um tema que correspondesse aos propósitos iniciais do ano que daqui a pouco vem chegar, e trouxe algumas ideias quanto aos hábitos positivos, para exercitar nesse novo período. A mesma energia aplicada no exercício dos vícios pode ser utilizada na adoção das atitudes do crescimento social, humano, interior, na gente. Os esforços investidos no uso das bebidas alcoólicas, fumo, excessos alimentares, falar da vida alheia, dormir demais, gastar o tempo em ações inúteis, forçar os outros a engolir nossos defeitos, tudo isto poderá conter a diferença entre gastar o tempo de qualquer jeito, ou utilizá-lo na construção das alternativas de viver melhor.
Educar diz bem o que isso representa em termos de transformação individual numa pessoa. Saber pensar formas convenientes de crescimento, abrindo espaços a mudanças de mentalidade, desenvolve as chances para construir os alicerces do futuro promissor, na criança, no jovem, no adulto, e marca pontos no progresso dos países. Enquanto, sobretudo os jovens, precisam adquirir o hábito de valorizar o seu potencial através do estudo, fugindo das drogas, dos costumes nocivos, os adultos necessitam praticar o que aprenderam na existência, dando forma aos projetos de ensinar pelo exemplo todos os seus praticados.
As metas de alterar a cantiga da história em favor dos ensinos renovadores percorrem, pois, as escolhas particulares das pessoas. Desejar o que é bom, sem exercitar a prática correspondente, nada acrescenta à herança que deixaremos aqui neste chão. As grandes safras passam pelas mãos dos que possuem vontade, coragem, disposição de transformar o quadro das épocas que viveram, dotadas dos firmes propósitos de mostrar serviço naquilo em que participaram.
Quantos hábitos bons aguardam a aceitação interna dos individuais, para o fim de acrescentar paz, saúde, progresso, a este nosso mundo ainda em fase de elaboração, o qual todo dia fornece a matéria prima de projetos válidos onde há vagas para quem quiser chegar e trabalhar.
Enquanto isto, os primeiros passos pedem visão e discernimento dos operários do porvir humano. O lado que ama sempre consegue mais em termos de reverter longas esperas de desânimo. Agir com o querer da religiosidade natural, viajar dentro dos sonhos das melhores coisas e serenar a consciência e produzir valores que tragam resultados afirmativos. Deste modo, um começo de ano apresenta o sabor das sementes doces a serem plantadas nas 365 folhas brancas, abertas para preenchimento ao gosto dos autores desse outro calendário que logo mais se inicia.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Viagem ao rio da infância - Dimas Macedo

Porque acredito que a vida é feita de movimentos incessantes, que modelam a nossa maneira de ser e de agir, proveito o tempo de lazer para viajar, às vezes para conhecer o que existe para além dos muros do Brasil.
Umas férias merecidas, sorvendo a cultura e a linguagem de velhas cidades européias, deixam no espírito, na imaginação e na memória algumas efusões que dificilmente se apagam nas nossas retinas fatigadas.
Hoje, treze de dezembro, estou de retorno da bela cidade de Le Havre, situada na região da Normandia francesa, bem no encontro do estuário do Sena com o Canal da Mancha.
A minha condição de professor convidado da Universidade de Le Havre, onde ministrei conferência sobre o processo eleitoral e os valores da democracia brasileira, me faz pensar na recompensa que a vida nos dá a cada instante.
O que quero registrar nesta crônica, contudo, é o impacto que essa importante cidade portuária exerceu sobre mim, sobre a minha visão e a minha sensibilidade de artista e de viajante.
Enfrentei uma tempestade de neve, há três dias, quando desembarquei em Paris, vindo da Alemanha, mas em Le Havre a temperatura se fez mais generosa com a minha condição de nordestino, acostumado com o calor dos trópicos e com o clima ameno que somente o Ceará sabe transmitir a seus filhos.
Em Le Havre, assim como na França e em toda a Europa, as condições de vida das pessoas são muito diferentes daquelas em que vivem os nordestinos e muitos habitantes do interior do Brasil.
A mente humana aqui foi libertada do processo de escravidão social e do processo de dependência política que vinculam muitos cearenses à manipulação dos seus representantes políticos.
Em qualquer parte do mundo aonde esteja, sempre me vem ao baile das lembranças os encantos da terra onde nasci e assim também o traço natural e a cultura do nosso querido Ceará.
Navegando sobre as águas do Sena, em Paris, ou contemplando o estuário do Sena, em Le Havre, o que me vem à mente, de plano, é o Rio Salgado e a sinuosidade das águas da infância; o que se impõe no percurso da lembrança é o retrato da velha cidade onde nasci.
Lavras está em todas as cidades pelas quais passei em todos em dias de viagem: assim em Londres, como também em Bruges, Amsterdam, Paris, Bruxelas ou Colônia.
É como se o mapa mundi fosse povoado de saudades e lembranças que se deixam gravadas no recesso do sonho. É como se o Reno, o Tâmisa e o Sena refletissem a brisa serena do Salgado, o mais doce de todos os rios que os meus olhos não se cansam de ver.

Paris, 13.12.2010

Uma interrogação acelerada - Emerson Monteiro

A velocidade com que o parque industrial produz automóveis e os lança ao mercado consumidor segue deixando enorme vazio nas respostas ao problema de circulação e estacionamento que isso ocasiona a toda hora, sobretudo nos países de desenvolvimento caótico e duvidoso, semelhantes ao caso brasileiro.
Para imaginar o nível de seriedade do assunto, vale dizer que uma capital do porte de Recife, exemplo aqui perto, também no Nordeste, recebe hoje, a cada dia, o número médio de cem novos veículos, despachados ao burburinho da metrópole de si já saturada dos mais diversos desafios atuais.
Essa civilização do petróleo, grosso modo, impõe regras extremas de obediência aos mercados de sua órbita, através das cláusulas inegociáveis do poder soberano. O carro é a estrela principal da festa, pois gera divisas e paga impostos, contudo reclama longos e intermináveis caminhos asfálticos (o que, só no Brasil, significa 62 mil quilômetros de rodovias federais), além das ruas largas e avenidas de muitas pistas, exclusivo monitoramento através de pessoal técnico, enquanto as políticas oficiais ignoram construção e ampliação das estradas de ferro jogadas no ostracismo.
O tal mundo capitalista ocidental, portanto, aceita bem sobreviver sobre automóveis qual inexistisse alternativa de locomoção. E outras matrizes energéticas são pouco consideradas, a não ser o combustível ora utilizado. Espécie o sistema refreia o avanço das outras energias. As energias solar, hidráulica, elétrica arrastam passos, contidas na ausência quase absoluta de pesquisas ou financiamentos.
Há notícias de iniciativas que, logo consideradas, sumiram como por encanto, na experiência do carro a água, do carro elétrico, este que, por sua vez, só de longe parece despontar nas ilhas japonesas. Tentativas de transportes coletivos movidos à energia solar, ou elétrica, saíram das cogitações. Há estudos, inclusive, de transportes desenvolvidos à base de oxigênio, sem merecer, na obtusidade do trato industrial, maiores possibilidades, ainda em fase preliminar pouco levada a efeito, ou eliminada nos primórdios.
Durante a espera de soluções ao grave enigma de quilométricas distâncias, metrópoles e modelos econômicos, prenuncia-se temporada ativa de caça à genialidade dos tempos, com vistas inventar as respostas coerentes do confronto homem versus automóvel, embate que, até agora, dá vantagem ampla às máquinas superaquecidas.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Olhos de ver - Emerson Monteiro

Nestes tempos libertos e comunicativos, acham-se destravadas milhões de portas ao sabor do conhecimento de dentro da humanidade e do universo, na história dos tempos idos e das possibilidades dos tempos que virão. Ninguém pode reclamar de sonegação de informações. O trabalho das eras chegou ao nível dos desejos avassaladores das oportunidades, nos diversos campos do saber, e torna o viver contemporâneo em um oceano de ofertas, no que diz respeito à quase totalidade técnica de pesquisas, emoções, religião, lugares, personalidades, artes, palco luminoso de luzes e movimentos, posse absoluta das gerações inteiras, sertão, mar, geografia, física, música, ciências.
Aos habitantes coloniais do Planeta bastam: levantar a vista, apertar uns dois ou três botões e fixar o ponto em que a empanada revelará os segredos das origens, mostrando as previsões futuristas dos cálculos infinitesimais. Verdadeira festa de proporção desconhecida limpa as carências, sem contar somas fabulosas acumuladas nos gabinetes e as próximas ações de governo, que melhorarão os recordes obtidos, tudo a favor do patrimônio da raça dos sonhos e da imaginação.
Visão objetiva indica caminhar livre dos interesses exclusivos de só alguns, fora das intenções apenas individuais. O barco pertence ao coletivo, queiram ou não queiram apostadores da grande obra, que questionavam o sentido dessas evoluções. Quando lá nos primórdios apareceram os primeiros hominídeos, antigos resquícios dos atuais seres humanos, por volta de dois a três milhões de anos, já havia na semente o projeto aqui trazido ao campo das multidões. Nada melhor do que ouvi no tempo a existência dessas provas provadas.
Cabe hoje, no entanto, aos protagonistas da cena, valorizar o patrimônio obtido, horas, ar, claridade, energia, que alimenta a condição da grande massa no seu crescimento. Letras pulam acesas na frente dos atores todo momento indicando permanência e generosidade, através das consciências, numa opção de selecionar o lado positivo das duas alternativas de viver e agir.
Longe, pois, tirar de ninguém as chances de pensar maior, desestimular a felicidade de ver as paisagens boas, ler os roteiros alegres trazidos nos braços perfeitos de Quem que nos criou para uma trajetória de benções e que conduzirá o processo justo a bom termo, mantendo o ritmo ideal do vasto espetáculo onde habitaremos para sempre. A todos um Ano Novo de plenas realizações.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma narrativa de natal diferente

Estou correndo para ir à casa do meu filho para a ceia de natal: três gerações se encontrarão. A sogra é bisavó duas vezes e seu tempo é medido em frações da eternidade: o encontro é agora e não depois. Aproveito para postar este texto que li no blog do Luis Nassif e que foi produzido pelo jornal Le Monde. Os créditos estão todos no texto. Aliás um bom apanhado de linhas filosóficas à luz do pensamento do cristianismo. É muito bom para os cristão se verem e sentirem o quanto guardam no seu pensamento de correntes filosóficas que se chocam com sua doutrina original. Isso ocorre inclusive com a instituição Igreja.

Le Monde

Thérèse Delpech*



O filósofo polonês Leszek Kolakowski, no final dos anos 1950, falou sobre o Natal com tanto humor e perspicácia que não resisto a apresentar uma versão abreviada de seu relato. Ei-la.

Em um certo 25 de dezembro, o astrólogo-chefe de Herodes foi até a casa de seu mestre para lhe anunciar o nascimento, sob o signo de Saturno, de uma criança cujo destino era se tornar rei dos judeus. Ele acrescentou, sem tirar qualquer conclusão disso, que o poder de Herodes estava ameaçado por esse acontecimento. O rei, um tanto cético, considerando os personagens modestos aos quais Saturno geralmente oferece sua proteção, perguntou assim mesmo, por medida de precaução, onde essa criança havia nascido, antes de dispensar o astrólogo e reunir seu conselho.

Os quatro maiores dignitários do reino, cada um deles representante de uma perspectiva filosófica bem distinta, faziam parte dessa alta instância. Herodes lhes anunciou que, diante da impossibilidade de determinar de qual criança se tratava exatamente, uma vez que os astros se calavam sobre esse assunto, ele decidiu massacrar todos os recém-nascidos da cidade de Belém. E sobre isso os quatro conselheiros foram convidados a se exprimir, um de cada vez.

O primeiro era um estoico. Ele ressaltou que o destino não podia ser modificado, e que, portanto, era melhor deixar todos aqueles bebês em paz, entregando a questão para a divindade. De fato, se ela havia decidido o nascimento de um novo rei dos judeus, o fato poderia ser lamentável, mas nada poderia alterar o curso das coisas. Como dizem, se te derem limões, faça uma limonada.

O segundo, um epicurista, refutou a inevitabilidade do destino, e argumentou que o crime coletivo poderia talvez ter o efeito desejado: eliminar um concorrente. Mas ele aceitou a conclusão de seu confrade, por ser imoral atacar frágeis criaturas que não dispunham de nenhum meio de defesa.

O terceiro, um moralista religioso, também negou a predestinação, e aceitou a ideia de que o crime poderia salvar o poder real, mas ressaltou que o assassinato não seria vantajoso a longo prazo, em razão da justiça divina, que geralmente não era favorável ao extermínio de recém-nascidos. Portanto, se Herodes massacrasse inocentes, após sua morte estaria sujeito a um castigo perto do qual a perda do poder seria uma ninharia.

Nesse ponto da história, o caso decididamente não se encaminhava a favor dos planos de Herodes. No entanto, ainda restava o quarto conselheiro, um político (ou, se preferirem, um sofista), que argumentou de uma forma totalmente diferente de seus predecessores. Herodes sabia, por experiência própria, que podia contar com ele. É absurdo, ele disse, afirmar que os recém-nascidos são incapazes de se defender, pois todo inimigo morto está exatamente na mesma situação: na verdade, se ele fosse capaz de se defender, não teria sido morto. Portanto, não há nenhuma diferença entre as crianças, por mais jovens que sejam, e as hordas de legionários cobertos de aço. Ademais, na luta pelo poder, tudo é permitido. No final, para completar, o político lembrou que o princípio da responsabilidade coletiva é o mesmo do pecado original: Adão e Eva não seriam na verdade os únicos responsáveis por inúmeras tragédias de inúmeras gerações? Qual a diferença entre a história do mundo e o assassinato coletivo anunciado por Herodes?

O rei, satisfeito, fechou o conselho, declarou todos seus conselheiros favoráveis ao massacre, e foi executar seu plano. A sequência, todos sabem: os recém-nascidos foram mortos a golpes de espada, enquanto a pequena criança visada tomou a estrada para o Egito montada em um jumento.

O epílogo, em compensação, é contado com muito menos frequência, sendo que ele contém a moral de toda a história. Ele ocorre dezenas de anos mais tarde, nas chamas do inferno, onde Herodes encontra seus quatro conselheiros acompanhados do astrólogo. Cada um levava no peito, segundo a tradição infernal mais difundida, uma placa indicando o crime cometido.

Para Herodes e o político, o caso era simples: ambos foram condenados por infanticídio. O estoico foi condenado por ter professado a doutrina herética do fatalismo e ter propagado um derrotismo que enfraquecia a luta que ele deveria conduzir na Terra pela causa divina. O epicurista foi condenado por ter desdenhado da questão do poder e assim contribuído para a anarquia. Quanto ao moralista religioso, ele foi condenado por ter defendido uma falsa moral, fazendo de Deus um mero contador e se baseando no cálculo das consequências no além dos atos cometidos aqui, e não na verdadeira moral que nasce do amor desinteressado da divindade.

Mas e o pobre astrólogo, vocês dirão, que só relatou aquilo que os astros diziam, por que ele teria sofrido o mesmo destino que os outros cinco? Era isso que ele mesmo não conseguia entender. Eis, então, o que estava escrito em sua placa, e que pode dar lugar a mais de uma reflexão entre os leitores: “Condenado por ter transmitido falsas informações com consequências funestas”. Na verdade, ao anunciar que havia nascido um rei dos judeus, o astrólogo se esqueceu de acrescentar um elemento essencial: esse reino não era deste mundo.

*Thérèse Delpech, cientista política e filósofa, especialista em questões de defesa.

Tradução: Lana Lim

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2010/12/24/uma-outra-form...

A lei da Compensação - Emerson Monteiro

Discorrer quanto às leis do mundo moral requer dose dupla de poder de expressão e clareza nos detalhes, ao menos para chegar perto da compreensão de quem escuta e informar o suficiente daquilo que se pretenda, porquanto eis aqui um tema que pede palavras novas, aspectos instigantes de convencimento e raciocínio, cores e formas excitantes, senão, nada feito, assunto encerrado, botas jogadas fora. Isso porque a realidade pressiona sem dó nem piedade, visualmente, concretamente, materialmente; realidade, aquela que circula em torno da gente feita mutuca, impõe seu respeito em quase tudo e todo tempo, independente do gosto particular das pessoas e modas.
Uns apetites querem sabores picantes, cheiros intensos das circunstâncias, reclamam alimentos pesados, esportes radicais, sons estridentes, emoções fortes. Outros, os poéticos, por sua vez aceitam ritmos e harmonias suaves, o sabor mais oriental dos pratos vegetarianos, o hálito perfumado de incensos e flores, que lhes tocam a leveza da sensibilidade e transporta aos abismos infindáveis das vastidões distantes, passageiros aceitos de viagens impossíveis.
Bom, querendo falar de uma dessas leis dos mundos morais, coisas abstratas que existem fora do mundo físico, falar da lei da Compensação, começamos relacionando-a com outra lei já por demais reconhecida, a lei da Gravidade, que nos mantém grudados ao sistema solar, sem a qual se tornaria inviável permanecer no solo, e, caso contrário, vagaríamos tontos pelo Universo, quais meteoros ou cometas, errando no vácuo. Dessa lei, também invisível, ninguém duvida. Mas existem outras que formam o campo de força onde estamos.
Uma delas, a lei da Compensação, por sua vez, nos reconforta por dentro nas crises inevitáveis, e esclarece aquilo que a vida impõe, pois obedece a regras ocultas, porém manifestas, na história de todas as pessoas.
Por pior que sejam os caprichos do Destino, em troca virá o reverso da medalha permitindo uma leitura positiva das ocorrências, revelando graça e razão de ser. Ninguém gira, portanto, ao léu fora das normas perfeitas das leis da Natureza, na Justiça exata que rege os acontecimentos desde o princípio eterno das evidências.
Em rápidas considerações, dizer que a ciência de viver implica na interpretação do que ocorre, seja de ruim, seja de bom, obedece a determinações superiores que conciliam as existências de modo justo. Ninguém nada paga sem dever, ninguém nada sofre sem merecer. Caso não atrapalhemos, todas as ações fluem por si e virá, um dia, a compensação amenizar as dores, no tempo certo, sem sombra de dúvidas. Ainda que cientes, no entanto, só poucos aceitam como regulares os tropeços da sorte, sofrendo deste modo antes e depois das tempestades, esquecidos da perfeição que determina a Lei e suas lições de conforto a todos nós.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

As razões do perdão - Emerson Monteiro

A pequenez das individualidades humanas responde a um tanto das indignações que vivem aparecendo nas encruzilhadas deste mundo. É pisarem no pé da gente que sobe fogo de arrogância do tamanho da falta de juízo, gerando atitudes imprudentes, garras afiadas rasgando folhas de zinco e palavras agressivas de sapecar e sacudir as estruturas em volta. Riscos inesperados de causar contrariedade em nós e nos outros, nas famílias, na sociedade, destruindo esperanças e futuros brilhantes pela frente. Depois que passa o temporal, sobra grudado no céu da boca o desassossego da raiva, bicho que, alimentado no orgulho, sujeita virar ódio, com amplas repercussões negativas, de causar espanto nas páginas policiais mais avermelhadas.
Esse endurecimento de gênio vem de longe, dos tempos de menino, das famílias equivocadas e seus conselhos de vingança. Lembro bem de quando no colégio apareciam desentendimentos de alunos, o professor José do Vale buscava contornar a revolta dos mais agressivos, e dizia:
- Vocês já ouviram falar na existência de um quarteirão de valentões? - Isso ele justificava porque os valentões não duram muito, se destroem com extrema facilidade, pois, como dizem os orientais, ninguém se aguenta muito tempo na ponta dos pés.
A mansuetude, portanto, torna-se, a cada momento, uma norma de sabedoria valiosa para todos os lugares deste chão, ainda que haja competições de tudo quanto é lado. O capitalismo vive disso, da competitividade exacerbada, porém insiste em desestimular o extremo das guerras, numa contraditória hipocrisia. Essa constatação demonstra ser a do fio de equilíbrio em que se arrasta a civilização deste período da história.
Jesus, no entanto, trouxe o perdão das ofensas qual motivo da evolução aos níveis espirituais do seu Reino dos Céus. Dar a outra face quando nos baterem. Ignorar as provocações. Não ter inimigos. Uma doutrina digna e fundamental para a transformação superior que buscamos em nos mesmos, no embates da convivência pacífica. O Caminho, a Verdade e a Vida, passos da salvação dessa jornada, no campo atual das coisas materiais.
Assim, o perdão revela o lado divino dos seres humanos e que os conduzirá ao sonho da esperada felicidade, única justificativa de atravessar os desafios da existência com glória e com sucesso. Instrumento de exercitar a humildade, quem obtém o grau de praticar o perdão decerto usufrui no coração os valores da aceitação de melhores sentimentos bons, o que Jesus ensina através de suas santas palavras.
Perdoar, eis o meio eficiente de acalmar, dentro de si, as forças destruidoras da agressividade, sentimento contrário à poderosa Lei do Amor maior.

Bibi da Onça - Um Otimista no Natal - Por José do Vale Pinheiro Feitosa

O título carece explicação. Bibi por diminutivo de Beraldo e Onça por feito de coragem ao contrário. Madrugada de valentões: caçada de uma onça que dizimava as ovelhas lá no olho d´água da Serra do Quincuncá. A luta para arrumar a arriscada excursão na coragem de Bibi. Ele acompanhou, mas assim que o rastro da fera e tiquinhos de bosta verde no meio do mato apareceram, deu uma sede de deserto na alma de Bibi. As cabaças estavam secas. Alguém sugeriu que Bibi chupasse um taco de rapadura. Pronto Bibi bateu em retirada a busca de um pote de água dormida. A onça colou ao apelido de Bibi.

Bibi é otimista inveterado. A sentença do patrão das terras onde vive agregado são loas de obediência. Mas ele tem uma arrumação no olhar: o olho esquerdo fulmina o pessimismo dos que reclamam e o direito ilumina as glórias do patrão. O Patrão anda por aí na Hilux refrigerada, mora na cidade e de costuma provar o sal da terra nos mares bravios do Ceará. Bibi é outra coisa: casa com teto vazado feito arupemba e paredes com buracos de espia.

Neste natal o patrão mandou a Hilux na fazenda para pegar as carnes de um carneiro e um peru de primeira. Aproveitou a viagem e mandou uma “ceia de natal” para os agregados da sua fazenda. O olho direito de Bibi da Onça brilhou como uma super nova.

Os agregados que restavam na fazenda eram poucos e Bibi aproveitou para criticar:

- Viram no que dá? É esta tal de Bolsa Família e os homens se aposentando cedo demais. Tem muito caba bom de eito que foi morar na cidade com aquele dinheirão que ganha do governo não quer mais nada com o trabalho. Agora é isso aí! Uma festa desta tinha para mais de quarenta pessoa. Agora é só nós.

De fato os presentes à “ceia” não passavam muito de quinze pessoas. Entre eles uns três sobrinhos de Bibi, Mário e sua mulher Ana, Zé Chulé e a mulher, Tonho e Zefinha e mais outras pessoas que não adianta esticar a lista. E aí veio a ceia. Que decepção. Bibi, abriu a bolsa de plástico e tinha umas seis pet de tubaína. Mario olhou para Ana e estimulou o olho esquerdo de Bibi.

- Mas minino só mandou “espoca bucho”. Antigamente pelo menos tinha aluá. Agora é este bicho que faz nós soltar tanto traque que escangalha o buraco que rima com caju.

- Deixe de ser ingrato. Seu pessimista. Nunca vê as coisas boas que acontece. Tudo é ruim, não adianta dar as estrelas. O aluá é coisa ruim, da casca do abacaxi, suja, cheia de micróbio. Agora não, este refrigerante de primeira é sadio, a água é até pasteurizada.

Mario olha para Ana e comenta: e vai ter pastel?

- Qui nada. Ói lá em riba da mesa, só tem aquela bulacha dura da bodega de Mané da Rola.

Bibi ficou possesso com as palavras de Mario e Ana. Foi de porta a fora e fez uma oração de louvor ao seu patrão, com o chapéu na mão e o olho direito olhando para a casa grande adormecida no silêncio do natal, com tubaína, bolacha dura e sem a Missa do Galo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Por este ano que termina - José do Vale Pinheiro Feitosa

Nos tempos iniciais do Cariricult embarquei numa que estaria na praça da cidade do Crato, como uma espécie de vão central do Cariri, com os amigos, falando do que bem quisessem e como achassem melhor. Logo fui atalhado pelo Maurício Tavares que interpretava aquela imagem como uma espécie de ação acrítica entre os amigos, especialmente por que ali se tratavam de textos.

Como Maurício é do ramo, além de trocar as farpas de sempre com ele em defesa do que pensava, também vieram as reflexões igualmente enriquecedoras e vindas dos outros. Afinal agora existia o texto por comunicação, já não havia o burburinho simultâneo de vozes, que terminam se anulando pelo som e afinal criando um arranjo de consenso. Com texto é diferente: há o tempo solitário do escrever e a reação apenas depois, multifacetada, cheia de opiniões diferentes e, claro, de farpas com esgrimam entre corpos. O consenso é muito mais difícil e a divergência se aprofunda muito mais.

Este fenômeno que já havia surgido nos blogs, ficou mais intenso nas redes sociais, especialmente com o twitter. Agora mesmo houve um debate acirrado entre blogueiros do campo da esquerda, em razão do uso da palavra “feminazi” e o calor do incêndio foi maior e reacendia quase diariamente, exatamente no e pelo twitter. O interessante é que o incêndio deveu-se a problemas de preconceitos com o tema do feminismo, mas se revestiu essencialmente de disputas pessoais, por maior visibilidade na rede.

O que tento dizer é que este ano de 2010 foi um ano especial por dois motivos principais: a crise econômica dilacerando a zona do euro e as eleições brasileiras. Esta energia descomunal arrastou muito mais coisas que estavam um patamar abaixo e vieram para o centro dadas as semelhanças. Uma delas foi a questão da igreja católica, atravessada por mudanças extraordinárias num contraponto conservador do atual papado. Isso deixou nossos blogs em várias chamas.

As eleições presidenciais nem se fala: foi o centro das teimas. Gente abandonou o barco de alguns blogs, outros foram literalmente expulsos e muitos foram vetados sobre certos assuntos. Não foi por menos, além de haver uma grande esgrima nacional, no Ceará houve uma luta entre o passado que teimava em ficar e um novo que já havia tomado a sala principal. No Crato a força maior nasceu na própria política municipal, estimulada pelo seu governo, a sustentar opiniões de muitos debatedores.

Afinal não fiquei à margem de nada. Posso ter deixado má impressão com as divergências, mas garanto aos meus amigos que a idéia não foi agredi-los com o contraditório, apenas ser tão igual, que todos me reconheçam como parte, apesar de viver distante daí. Não quero dizer que a visão de mundo de cada um esteja errada ou superada, quando me coloco, por vezes, com outro pensamento, apenas quero dizer que ele existe. Não é convencimento, é mostrar validade de existência de mundos paralelos ou até mesmo transversais.

Gostaria de ter sido poeta, um bom contador de histórias, ter narrado transcendências que expliquem as platitudes da vida. Não consegui, mas o que consegui, foi mostrar como este filho da terra é. Sem me tornar exemplo, apenas parte do geral em transformação. Tudo muda, muito do que não muda não fica sem voz. Um dia vai aparecer um sussurro, mas depois serão gritos.

Espero que apesar de tudo, me compreendam e desculpem por nem sempre falar de flores. Mas é assim mesmo: o nosso querido Domingos Barroso fala dos insetos que passeiam nos cantos de seu olhar e sinto algo tão especial como o encanto dos “lírios dos campos”.

Enfim, isso é para desejar a todos um forte apego ao caminhar, a um ano novo sem medo do desconhecido. Desejar que estejamos nestas linhas a dar sentido coletivo a este belo e contraditório Vale do Cariri.

Ouvi de Lysâneas - Emerson Monteiro


Ao ler notícia publicada pelo jornal O Povo, nesta terça-feira (21/12/2010), a respeito da recusa do bispo cearense Dom Manuel Edmilson Cruz de uma comenda do Senado Federal, justificando a atitude como protesto pelo aumento dos subsídios dos parlamentares, votado pelo Congresso em dias da semana passada, lembrei de um texto que escrevi há duas ou três décadas e que agora apresento, a saber:
No ano de 1975, em Salvador, assisti inflamada palestra do então deputado federal Lysâneas Maciel, numa cruzada que empreendeu por vários estados para denunciar o clima de repressão que constrangia o povo brasileiro. Sabia-se mesmo sujeito à cassação de que seria vítima logo no ano seguinte, atingindo também outro corajoso parlamentar, o cearense Alencar Furtado.
De verbo fluente, destemido, sensibilizou com profundidade todos os presentes no auditório superlotado, a interpretar de forma contundente o momento de transição que enfrentávamos sob o clima rígido da força totalitária no comando das instituições políticas nacionais.
Dentre os recursos adotados na ocasião, bem aos moldes da melhor oratória evangélica, pastor que era, Lysâneas narrou episódio verificado com um pastor protestante, na Alemanha durante o regime nazista.
Zelava reverente pela sua comunidade religiosa, quando ocorreram as primeiras detenções do período negro que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, a prenderem primeiro os líderes comunistas. Ele pensou consigo: - Não sou comunista, portanto nada tenho com isso. E omitiu-se de reagir em face da violência cruel encetada contra seres humanos.
Os senhores da ditadura de Hitler seguiram na escalada dolorosa de terror, vindo deter também os socialistas, motivando no religioso idêntico comportamento de descompromisso. Por não ser socialista, indiferente permaneceu, aceitando as manobras policiais da Gestapo.
Depois, seriam levados os homossexuais, as prostitutas, os ciganos e outras minorias perseguidas. O raciocínio se repetia, de ficar quieto diante de tudo o que observava, sem, no mínimo, falar ou demonstrar qualquer atitude contrária, perante as pessoas de sua comunidade.
Mais adiante, também prenderiam os judeus, os católicos, enquanto nada alterava das relações com as forças do poder, pois achava fora do enquadramento nos grupos perseguidos. Nem de longe avaliava possuir qualquer responsabilidade pelas vítimas das arbitrariedades.
Até que, dias depois, bateram na porta da sua igreja para levá-lo preso, e nessa hora ninguém havia que mobilizasse forças em seu auxílio e levantasse a voz pela sua liberdade, pelos seus direitos, sua cidadania democrática.
Eis, assim, exemplo de ocasiões quando os nossos rostos vêm à mostra, por conta dessa atitude sincera e verdadeira de Dom Edmilson Cruz, oportuna e atualizada, de um valor inestimável, para que não nos acomodemos aos vícios da política desvirtuada, como não sendo conosco a crua responsabilidade que a todos compete todo tempo. Admiro, pois, a coerência de pessoas deste tipo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Laura no Natal - José do Vale Pinheiro Feitosa

Laura nasceu neste domingo do dia 19 de dezembro de 2010, menos dois dias em que, há 62 anos, nascera o avô. Naquele final de década dos anos quarenta, o mundo era só esperança, mesmo com a Bomba Atômica e o veneno da Guerra Fria já sendo inoculado, uma era de progresso humano começava.

Laura sentiu a luz do mundo pela primeira vez vindo das fontes artificiais da maternidade, dos flashes da fotografia digital, foi para uma incubadora que lhe deu calor a partir da eletricidade. Ela está num mundo muito mais complexo, muito mais avançado e que se pergunta todo dia como resolver as dores dos incertos dias.

Laura e o mundo: o quanto Laura é o próprio mundo e ele é o quantum de Laura, não se precisa responder. A resposta já é da natureza mesma do nascer. Não se nasce por acaso, é uma necessidade, um impulso de futuro, uma mutação contínua, com a qual jamais se encontrará um ponto final na sentença do que seja o mundo e Laura.

Para contabilidade dos que já estavam no mundo antes de Laura, resta um haver por multiplicar, como acréscimo do cotidiano. Sempre que imagino o 25 tios que a herança nordestina do avô de Laura lhe deu, não me veio o amor dividido dos pais, mas a imensa capacidade de multiplicar que tem o amor que tantas vezes o tratamos com o meloso banal de algumas frases de algibeira.

Isso posto que Laura, irmã de Sofia, é uma frase que se basta e diz tudo, mas não diz o que comumente pensamos como natural. Não existe uma ordem entre Laura e Sofia, esta primeiro e Laura depois. Não é um ranking de preferências ou particularidades. Em outras palavras a ordem cronológica entre as duas é apenas isso, não leva a maiores diferenciações que não seja apenas que Laura e Sofia, como de restos todos, somos parte únicas do mundo.

Quando se explica o que foi dito no parágrafo anterior, se revela a preocupação da longa tradição ocidental e até mesmo oriental: o primogênito. A ordem de herança e poder não cabe mais no mundo de Laura e Sofia. A primogenitura foi ultrapassada há muito, resta em algumas mentalidades apenas como o comum dos retalhos de arcaísmo que se pregam no corpo do presente.

Laura, neste exato momento que escrevo completa 24 horas no pleno do ambiente, tem uma calma de transição que não parece “chocada” com o salto qualitativo em sua vida. Dorme, muito raro faz um breve choro e ainda não tem a volúpia oral, mas os olhos se abrem e examinam a luz desconhecida por alguns momentos. Um parecer para sua mente universal, uma breve impressão sobre uma nova realidade.

Laura não é uma tela em branco pronta para receber a escrita do mundo. Há muito que ela é algo de existência, de vida, de experiência, uma imensidão de novidades que já havia mesmo antes dos nossos olhares a vista nua. Pois é verdade que já a víramos por ultrassonografia, mas agora tudo parece o primeiro momento. É que ela está, bem ali, com seu breve respirar e ruídos orais que já denotam a voz do infinito mundo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

J. Lindemberg de Aquino - Emerson Monteiro

Queremos tecer aqui, em algumas e poucas palavras, um comentário a propósito de personalidade a quem o Cariri deve boa parte da evidência que hoje detém neste mundão imenso de Meu Deus; falar a respeito do João Lindemberg de Aquino, jornalista inteligente, possuidor de talento inquestionável já reconhecido nas letras nordestinas, e autor emérito do livro Roteiro Biográfico das Ruas do Crato, trabalho permanente para os estudos da história desta Região.
Durante décadas, anos 50, 60 e 70, pelos menos, os principais registros da movimentação social, economia e política do interior cearense da região sul ganharam notoriedade, sobretudo nas páginas dos jornais de Fortaleza, através das matérias que ele encaminhava para publicação.
Nos seus escritos, Lindemberg mostrou especial dedicação à vida social caririense, aos acontecimentos e lideranças que nortearam o progresso deste vale onde habitamos, conquanto agora mesmo apenas usufrua de uma vida recolhida e afastada deste meio que, com carinho e trabalho, ajudou a construir e onde estabeleceu numeroso círculo de amizades.
Quando, em 1953, o Instituto Cultural do Cariri encetava caminhada, dentre os seus fundadores ele ali se encontrava na função de Secretário da primeira diretoria, ao lado dos nomes expressivos de Figueiredo Filho, Irineu Pinheiro, Padre Antônio Gomes, Huberto Cabral e outros.
Desde cedo que busquei assisto de perto a trajetória intelectual deste cidadão cratense integrado ao meio, ainda de quando exercia um cargo no atendimento do INPS, em Crato, assessorava diversas administrações municipais cratenses e escrevia crônicas diárias para as Rádios Araripe e Educadora, além de testemunhar os principais acontecimentos sociais também das comunas próximas, divulgando-os na grande imprensa do Estado e do País. Nisto aplicou-se durante décadas inteiras, favorecendo o encaminhamento de temas progressista e atualizando as influências políticas e educacionais, o que marcaria bases no nosso crescimento histórico.
Dotado, pois, de paixão verdadeira pelo que realizou em termos de jornalismo sociocomunitário, Lindemberg de Aquino chamou a si a preservação da autoestima deste povo caririense, anotando para as gerações futuras efemérides e valores que eternizou com a sua pena.
Perante tais aspectos que caracterizam existência de tantos préstimos, cabe-nos reconhecer o êxito das ações que empreendeu e dedicar o melhor tributo de reconhecimento a João Lindemberg de Aquino por tudo que fez valer em prol da gente deste lugar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

I Fest Cariri Caribe - Emerson Monteiro


Acontece desde ontem (17/12) até 20/12 (segunda-feira), em Farias Brito CE, o primeiro festival de cinema denominado Fest Cariri Caribe (Audiovisual, Teatro, Música e Movimento), uma iniciativa do poeta e cineasta Rosemberg Cariry, filho do município, que envolve exibição e competição de filmes longa e curta metragens realizados no Brasil e em países da zona do Caribe, na América Central, este ano representada por Cuba, Venezuela e Porto Príncipe.
No decorrer da mostra na cidade, que comemora seus 74 anos de emancipação política, registram-se outras atividades culturais até o dia 20, dia do seu aniversário de autonomia. Além da exibição dos filmes, são realizadas palestras, oficinas, exposições, apresentações artísticas e, no final da tarde do dia 17, houve, pelas principais ruas da cidade, rico desfile de grupos artísticos e folclóricos, alguns deles dos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, numa animação das mais intensas, ao som da Banda de Música de Farias Brito, marcando, com isso, a abertura do evento.
A realização do I Fest Cariri Caribe coube ao Governo Municipal de Farias Brito, na atual gestão de José Vandevelder, sob o patrocínio da Casa Civil do Governo do Estado do Ceará e apoio de Sereia Filmes, Associação Cultural Curumins do Sertão, Cineclube Inácio de Loyola e Cineclube Quixará das Artes, ambos de Farias Brito.
Desde o primeiro dia, o festival mobiliza as escolas e as ruas, em clima alegre e participativo, que envolve os habitantes do lugar e sensibiliza pela beleza plástica e musicalidade.
Numa participação intensa dos principais responsáveis pela iniciativa, Auxiliadora Nergino, Bárbara Cariry, Nailson Teixeira e Cíceros Clislones, somados a outros nomes dedicados à educação do município, as atividades desenvolvem as apresentações seguirão até segunda-feira, quando, à noite, ocorrerá a premiação dos filmes da mostra competitiva, a exibição do documentário Patativa do Assaré - Ave Poesia, de Rosemberg Cariry, e a festa popular Noite Caribenha, animada por grupos musicais de Farias Brito.
A proposta do festival ora em andamento teve bases limitadas do ponto de vista do investimento financeiro, e junto a uma comunidade de menor porte do Cariri, contudo objetiva, dentro de pouco tempo, se transforma em uma data importante do calendário do cinema no Ceará, o que segundo Rosemberg, também incluirá outras cidades da Região.
Filho de Farias Brito, Rosemberg Cariry instalou e mantém funcionando, em avenida central da cidade, um ponto que reúne casa de cultura e centro cultural, com biblioteca, filmoteca, acervo de artes plásticas e sala de cinema, onde funciona o grupo de teatro denominado Os Curumins do Sertão.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os cinemas do Crato - Emerson Monteiro

O derradeiro filme que vi num dos cinemas cratenses foi Dança com lobos, com Kevin Costner, no Cine Cassino, pertencente a Mário Correia, durante sessão noturna de meio de semana. Com isso, para mim se fechavam as cortinas dos históricos cinemas, nesta terra de cultura e educação.
Ainda lembro com intensidade grandes filmes que vi no Cine Moderno, sessões das 16h dos sábados e domingos. As séries das 14h, no Cassino, no Moderno, superlotadas, gente em pé, corredores tomados, assobios, gritos, palmas, calor de saúna, suor de escorrer pelo pescoço, fachos dos projetores cruzando o escuro da sala, pessoas frenéticas em movimento constante quase a sessão toda, enormes fila na entrada, meninos vendendo revistas em quadrinhos, tabuleiros de bombons, carros de pipoca do lado de fora, ventiladores de coluna zoando alto, recepcionistas com laterna indicavam as poltronas vazias aos retardatários e a sonorização característica para abrir as cortinas (zuuuuuuuum, num sinal elétrico demorado), em preparação ao espetáculo, etc. A reforma do Moderno pelo seu derradeiro proprietário, Macário de Brito Monteiro, sucessor do tio Ormínio de Brito, foi acontecimento que marcou época e a história da cidade.
Depois, abriria suas portas em noite memorável o Cine Educadora. Um outro teatro de inolvidáveis películas trazidas a público. Na sua inauguração, exibiu Os cavaleiros da távola redonda, com Robert Taylor e Ava Gardner, onde não pude entrar por ter menos de 14 anos. Era uma sala confortável, cheia de janelas venezianas, de poltronas estufadas, espaçosa, um luxo só.
Já sumira o Cine Rádio, da Rádio Araripe, na Rua Nélson Alencar, onde assistira O cangaceiro, sucesso mundial do diretor brasileiro Lima Barreto, junto com meus pais. Também até 14 anos, mas acompanhado conseguira entrar com o coração aos pulos. Uma semana antes da idade mínima ainda cheguei a ser barrado na entrada do Moderno, para minha contrariedade. O Comissariado de Menores, ao qual depois pertenceria, funcionava com presteza e eficiência, terror da garotada ansiosa pelos filmes proibidos, sempre os mais procurados.
Nesse meio tempo de salas de exibição maiores, uma experiência de cinemas menores aconteceu em paralelo. José Hélder França (o poeta Dedé França), na década de 60, chegara a iniciar, pelos bairros, rede alternativa que exibia filmes na bitola 16mm, no entanto a proposta durou poucos meses.
Lembro desses cinemas menores, um na esquina de cima do Colégio Diocesano (Rua Ratisbona), o Cine São Francisco, e outro no Bairro do Seminário, o Cine São José. Se a memória não me engana, houve também outro nas imediações da Igreja de São Miguel, na Rua da Cruz, ainda a ser confirmado pelos memorialistas.
Em um dos armazéns existentes no final da Rua Santos Dumont, proximidade dos postos de Antônio Almino de Lima, quiseram, na primeira metade da década de 60, também montar um cinema em 16mm. Porém a tentativa frustrara nas primeiras sessões; a máquina emperrava após iniciada a projeção. Na primeira noite, recebemos saídas para a noite seguinte. Voltamos, eu e um operário de meu pai. De novo não passou da metade do filme. Retornamos na terceira e última noite. Pois, quando a máquina quebrou deu-se por perdido e até o dinheiro dos presentes eles devolveram.
Tenho notícias de outro cinema do Crato, que não cheguei a conhecer. Sei dele através dos escritos de Florisval Matos, o Cine Paraíso, que funcionou em prédio da Praça da Sé, no quarteirão onde ora existe a loja Hippie Chic e que antes abrigara a Cooperativa do Banco do Brasil e a Biblioteca Municipal.
Jackson Bola Bantim por sua vez nos informou que seu bisavô, Luiz Gonzaga de Oliveira (Gonzaguinha), nascido no Crato na segunda metade do século 19, fotógrafo, aqui acompanhou a visita de um grupo francês que exibia filmes pelo interior cearense. Interessado na nova arte, viajou a cavalo até Fortaleza, lá adquiriu um projetor e fundou, no prédio n.º 25 da Rua Miguel Limaverde, o primeiro cinema cratense, denominado Lanterninha Mágica, isso bem nos primeiros anos do século XX.
Eis, portanto, ligeiro apanhado da história das salas de cinema no Crato, anotada nesta fase em que aguardamos o retorno de um estabelecimento que corresponda, em nossa comunidade, ao progresso avançado da apreciada e resistente Sétima Arte no resto do mundo, pois no momento, para contrariedade dos muitos apreciadores, não há um único lugar de exibição de filmes em nossa cidade.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Os tesouros deste mundo - Emerson Monteiro

A importância dos objetos, sentimentos, ideias, guarda relação estreita com a prática das pessoas no decorrer da existência, a ponto de muitas perderem o juízo buscando satisfazer o instinto de querer mais uma coisa do que outra. Não poucas pessoas vendem a alma para atender aos desejos loucos, e atropelam os outros, gastam o que não têm, utilizam mecanismos sujos, a ponto de matar, roubar, destruir, no impulso desesperado de alimentar aquelas necessidades artificiais surgidas no afã da dominação dos objetivos planejados.
A fome doentia dos desejos errados existe na história desde que o homem é homem, pela ganância das guerras, dos saques, perseguições, negócios escusos, invejas e ambições desmedidas. Tudo pó e poeira da matéria em desintegração. O apetite avassalador do favorecimento a qualquer custo mostra a face melancólica dessa humanidade, o lado sem luz da epopéia das criaturas rumo aos afagos da ilusão, que só produzem miséria e respostas trágicas, nas caminhadas pelo mundo.
A traça e a ferrugem, no entanto, destroem, numa velocidade impressionante, tais equívocos, sob o comando de uma lei estudada sob o nome de ação e reação, tanto na física, quanto nas escolas religiosas. Nada fica impune fora dos ditames originais e eternos da natureza, que conduz os acontecimentos. Dia de muito é véspera de pouco. Dia de tudo é véspera de nada.
Quem quiser contrariar as normas desta sabedoria, guardada no decorrer dos séculos e milênios, que experimente, pois, mais cedo ou mais tarde, provará do desencanto. Há um tanto de exemplos de que o crime não compensa, em todo tempo e lugar. Mesmo assim, ainda impera o desejo ganancioso, que demonstra o atraso da raça teimosa e inconsequente, quando se sabe que o desengano da vista é furar os olhos, no dizer do povo.
No entanto, a dor ensina a gemer, e inúmeros escolhem estradas tortuosas do vício e do crime invés dos valores equilibrados e justos da paz e da coerência. Esse impasse nas decisões vale a todo minuto, conquanto vive-se decidindo qual dos dois caminhos escolher a fim de realizar os sonhos. Ouvi, certa vez, alguém afirmar que “o castigo do vício é o próprio vício; e o mérito da virtude é a própria virtude”. A consciência refletirá como praticar esta vida. O itinerário aonde nos leva ninguém desconhece. A estação final do processo vida espera a todos, equivocados ou prudentes. Portanto, o teorema traz consigo a solução do mistério de todas as intenções pessoais.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

III Mostra do Livro Virtual

Realizou-se em 15 de dezembro do corrente, das 8 às 16h, em parte das instalações do Parque de Exposições Pedro Felício Cavalcanti, em Crato, o III Mostra do Livro Virtual, promoção do CREDE 18, órgão da Secretaria de Educação do Estado do Ceará.
Estiveram reunidas nessa mostra dezesseis escolas pertencentes a onze dos municípios que formam a área de jurisdição do órgão promotor, através da montagem de estantes com exposição dos trabalhos, além de outras atividades relativas ao evento, dentre elas um encontro com alguns escritores da região do Cariri e a premiação dos trabalhos apresentados pelos estudantes.
Na tarde deste dia 15, sob a coordenação dos professores responsáveis pela mostra dos trabalhos, foi composta uma mesa formada pelos cordelistas Luciano Carneiro e Ulisses Germano, e dos cronistas Roberto Jamacaru e Emerson Monteiro.
Durante duas horas bem produtivas, houve interação dos alunos participantes do evento com os escritores ali presentes, numa oportunidade rara de proveito e repasse de experiências, de uma forma didática e natural.
Assim, diante do êxito considerável de mais um encontro literário envolvendo a escola e o universo em que se insere, acrescentando a participação de seguimentos externos pertencentes à área do conhecimento trabalhado, na ocasião, em nome dos escritores que convidados para este ano, tributamos, ao CREDE 18, votos de que prossiga neste empenho de valorizar a criatividade dos seus professores e alunos em promoções semelhantes, tanto no que tange à literatura, quanto aos outros setores de estudos. Isto, decerto, virá aproximar ainda mais a escola da vida comunitária e render os melhores frutos aos profissionais que ora se formam nas suas salas de aula.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tatai Nuel didou! Um esente de atal! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Se no silêncio as gotas se condensavam mais, agora o discurso dela vaporiza a observação. A multiplicidade de assuntos e temas que frases podem captar do mundo deixa o avô um tanto disperso nas sínteses de Sofia.

As sínteses ainda estão lá, a par de convenções e regras sociais, elas existem desde que o mundo teve Sofia. Não se tornaram mais esotéricas, coisas para iniciados, apenas que o turbilhão do verbo desconcentra a atenção.

A atenção ainda mantida é atordoada por tantas palavras, são várias escolhas temáticas, mas vejo um lampejo sintético, ela gosta de cantar. De usar os recursos fonadores por uma fonética tonal, uma escala musical que se traduz em emoção, expressão e como partícula, um encanto universal.

Entender Sofia quando agora é igual a todos, com seus dispersivos verbos, pode ser um caminho complexo assim como o foi para os físicos da partícula. Ao invés de se perderem no imenso e impenetrável mundo dos documentos e das classificações, como inventado pela “loucura” em rede do infinito Lineu e sua classificação dos vivos.

Como os físicos da partícula o caminho é buscar a natureza do infinitamente pequeno, ali no encontro de apenas pouco mais de uma dezena de classificações de tijolos e forças. Sofia, aliás, gosta de repetir o “quinininho”, tem uma atração especial pelas coisas menores. Talvez uma chave para sua decifração.

Agora ela está no âmbito da classificação das cores, incorporando os números naturais antes da dezena e da fonética, as vogais. Como já se viu já incorporou a escala musical e começam suas preferências.

Sofia se toca com a cor rosa. Repete a cor de modo intempestivo no atravessar de qualquer assunto. Onde se origina tal cor: na convenção da feminilidade cultural ou nalgum estado, temporário ou não, da própria Sofia? Uma coisa é certa, ela se estimula muito quando assiste a um vídeo com multicoloridas borboletas e diz que a de cor rosa é a dela. As dos outros só podem ser as outras.

Neste dias de dezembro a escola influi. A televisão também. E claro a família. Por todas as ruas grandes painéis que evocam o hemisfério norte, nevado e com a simbologia escandinava. Isso está em Sofia e em todo o mundo, diante do sistema mundial de comércio de mercadorias através dos portos marítimos, dos aviões e dos trens.

Por isso Sofia sentou-se e começou a cantar. No seu linguajar reinventado, mas preciso na escala musical. Ela, sozinha no banco traseiro, como as leis do trânsito obrigam, no seu banco de cinto amarrado cantava a plenos pulmões.

E seus pulmões nem estavam tão bem assim: uma infecção respiratória precisou ser controlada por antibióticos. Mas Sofia cantava a música que ficará para sempre na sua história. Ela pode esquecer-se, mas estas linhas a lembrarão por muito mais que sua própria existência.

E Sofia cantava: “Tatai Nuel didou um esente de atal”. Claro que nesta altura os avós só pensavam no presente deles como sendo ela e sua voz de canto suave.

O simples vive da fé - Emerson Monteiro

Invés de sair às cegas catando mistérios e trombando caixas vazias largadas em estradas distantes, a gente simples se alimenta na fé com um propósito superior que lhe indica os passos de seres vivos pelas entranhas dos rochedos tortuosos dessa humanidade, livre de outras perguntas inventadas, braços abertos ao trabalho e aos deveres que a vida impõe.
Houvesse outro jeito de tocar o barco, os milhões de criaturas seguiriam nessa respiração bem sua, constante, ao ritmo dos elementos, nas tiradas dos mundos inevitáveis. Santos do povo falam disso, de uma força descomunal que move e agarra com persistência o seguir das criaturas aos lugares desconhecidos do universo, única alternativa do processo vida.
Os seres anônimos, heróis desconhecidos, agem assim, movidos na ânsia de manter sua respiração sob valores trazidos brutos nas cheias do presente às margens do amanhã, máquinas históricas de uma tradição que se mexe de dentro do peito da certeza, que tem de ser desse modo, e pronto. A religiosidade monumental das pessoas cala fundo o íntimo da alma dessa multidão silenciosa, produzindo certezas a todo instante, matéria prima do futuro, no fluir sem parar das eras e tradições inesquecíveis e satisfatórias da existência comum dos dias delas.
O bater do coração alimenta essa energia original que gira as engrenagens, por cima de pedra e pau, e, com isso, permite acontecer histórias pessoais a todo o momento, dadas dimensões maravilhosas e segredos de continuar a qualquer preço bom a experiência de se conduzir em frente e estabelecer as bases dos novos continentes, nas horas de toda sobrevivência, do menorzinho ao maior de todos nós. Uma ação se soma às outras ações, linha após linha, fio condutor de nomes, pessoas e objetos, fora e dentro das aparências, peças de um xadrez de luta e parto dos momentos que se sucedem.
Caminha a sociedade dos seres humanos como formigueiro de gente e produção, necessário ao calendário e aos relógios, estômago do tempo e dos lugares, luzes nessa escuridão que clareia as famílias e os destinos, até serem felizes para sempre. Santuários de orações fervorosas, eles alimentam o desejo de seguir os passos, na convicção de que existe um sentido maior que abre as portas do amor, nas intenções de quem deseja o bem para seu valor absoluto.
Desse modo, os simples vivem da fé, de olhos voltados à mesma Eternidade que os contempla e os criou, e lhes deixa soltos no ar, perante a estrada que abraça com os pés e rasga a cada passo. Um saber mais que perfeito da melhor sabedoria os orienta, pois conhecem o tecido com que tecem o manto da Eternidade. E só isso os torna suficientes ao justo querer de Deus.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Eu vou......José do Vale Pinheiro Feitosa



Ligue a música e leia o texto. Desligue a rádio na borda à esquerda para não misturar os sons.

Nossos sentidos além de absorver a filigrana de milhões de coisas é o maior centro da síntese humana. Nenhuma referência é mais forte do que um perfume, um gosto, uma audição, um olhar ou um toque. Apenas a insinuação de qualquer um se torna um quantum, um momentum sintético de enredos completos ou de um discurso inteiro.

Assim é o gosto de segunda feira no côncavo da minha terra. O casco dos animais trazendo a mercadoria para serem arrumadas nas ruas. A conversação dos comerciantes no sereno das madrugadas entre o domingo e a segunda feira: o dia da feira no Crato.

O caleidoscópio especializado de ruas ou trechos de um ramo de mercadoria: cerâmica (barro), corda, frutas (especialmente banana e abacaxi); legumes, rapadura, roupas e objetos de couro. Um caleidoscópio complexo que, se tentássemos fazer o percurso inverso das centenas de tributários que alimentavam a feira, daríamos em terras encantadas do mais profundo rural antigo.

Os altos falantes das lojas anunciando as vantagens que existiam uma vez se ultrapassem suas portas ou se abeirassem das bancadas que expunham as ofertas. A voz altitonante dos anúncios ao se mesclar no vozerio das pessoas se espremendo nas calçadas nos deixando com a cabeça atordoada de tantas mensagens.

Um quebra queixo, um olhar de filhós, um desejo de mariola, a paquera do tijolo de leite de Joaquim Patrício. Um refresco, quem sabe o velho crush só para dar um arroto de arrasar quarteirão. E as obrigações, no Salão ABC para a máquina raspar o cabelo nas laterais, deixando apenas um resto de matagal no topo da cabeça.

E de repente respirar fundo ao deixar para trás aquela multidão igual um temporal no largo generoso e sedutor da Praça Siqueira Campos. Mizalmir, Cu de Apito, Lasquinha, Pedro Maia e seu Berredo no velho Chevrolet dos anos 40. O encanto dos cartazes do cine Cassino e o desejo de seduzir as atendentes do Café Crato. Nunca aconteceu, não era para aquele moleque, mas repetia para não ser diferente.

No final da tarde, pelas três e meia, com um dinheiro da entrada, um trocado para um Sonho de Valsa e as correntes do Cine Moderno, em desejo da bilheteria aberta. A sessão que remetia o freguês para mundos fantásticos, que podia ser uma aventura no futuro, em Marte ou na Velha Roma, nalgum recanto do Velho Oeste ou na Fantasia de Conto de Fadas.

Nas seis horas, um coração solitário. Um medo de isolamento, sensação de abandono. Pela Santos Dumont, com as lojas fechadas (o verdadeiro Canto do Cisne é o das portas corrediças das lojas sendo abaixadas), o restos de cascas de frutas na altura do mercado, a Padaria de José Cirilo com o mantra do pão da noite.

E tudo cessava, o mundo se ajeitava, retornava ao domínio da insensata segurança, nas luzes de um lampião de camisa. Um lampião Aladim.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O direito de ser feliz - Emerson Monteiro

Em meio ao fogo cruzado de depressões e medos, nas jornadas diárias que representam o espaço individual das existências, há um território valioso a ser preenchido, no interior das pessoas, o que exige uma coragem bem maior do que para vencer o grande inimigo, nas suas maiores guerras. Essa providência, contudo, requer apenas disposição de lutar diante dos obstáculos naturais de todo momento, independente daquilo que achem os outros. Na casa das ideias e das emoções, surge, sem parar num só instante, a tela cinemascope da presença da gente na gente mesmo, projeção contínua, e o projeto disso nada mais é do que a nossa vontade e seus filmes, que nascem de dentro, esta projeção que quem primeiro assiste somos nós, depois o contexto externo, formado pelas inúmeras pessoas em volta, testemunhas das nossas ações. Quem sabe do clima que vai rolar no momento seguinte somos primeiro nós.
E esse mecanismo precisa da dominação, do pulso anterior, do agente principal das cenas em movimento, autores do argumento, diretores, atores e espectadores do cinema chamado vida, nós. Há que haver pulso para viver, por isso. Ninguém deverá, de caso pensado, entregar aos outros, ou às circunstâncias, este tamanho direito de compor os quadros constantes do estado de espírito que significa a representação de mundo e das mudanças das horas, fardo constante que carregamos desde o princípio da existência.
Mais à mão, no processo pessoal dessa determinação de si para consigo, no que podemos denominar casa das máquinas ou laboratório dessa ação de elaborar a ciência dos dias, ficam os elementos com os quais se irão produzir a película única vista a cada momento, na história individual das criaturas, trabalho particular delas próprias, estrada principal da sua caminhada. Isso com que trabalhar, pois, o filme da presença pessoal das criaturas recebe o nome de vontade, ou força do querer, elemento valioso e único, insubstituível.
Na sabedoria do tempo, ouvimos dizer que “assim é, se nos parecer”, o que, noutras palavras, resume o conceito por demais conhecido de sermos os autores, ou sujeitos, das ações do mundo. Os objetos existem, porém aqueles que dão existência aos objetos, os sujeitos, somos nós. “Quem ama o feio, bonito lhe parece”, a tal coisa dita de jeito um pouco diferente.
Portanto, simples quais todos os valores originais da vasta natureza onde habitamos, a equação da sonhada felicidade apenas reclama a atitude positiva de trocar o padrão mental sob o qual desenvolvemos o ato de viver, livre das complicações e entregas a vícios e fraquezas de perder batalhas antes de entrar no campo. Levantar o ânimo e olhar com gosto bom, estas sejam as providências que farão a difereça, para melhor, qualquer ocasião. Avalie bem, e não desista de ser feliz.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Lennon

E lá se foram trinta anos ! Dá para imaginar uma avalanche de minutos e segundos dessa? Quase onze mil dias esvaíram-se, sem que ao menos percebêssemos, pelo angustiante canal da ampulheta! E parece que foi ontem! Mal tinha chegado em Crato, pronto a exercer minhas atividades médicas, quando a notícia me atropelou: assassinaram Lennon ! Aquilo parecia uma loucura, uma alucinação. Como ? Ele que, chegando em New York, desencadeara uma verdadeira batalha pacifista, que conclamara todos a derrubarem barreiras ideológicas, geográficas, étnicas, políticas, em nome de uma paz holística? Que se posicionara frontalmente contra a barbárie da Guerra do Vietnam? Como um delírio daqueles poderia ter acontecido? Lembro : meio absorto e tonto, naquele dezembro de 1980 ensaiei meu primeiro texto após a volta e o publiquei aqui mesmo na Rádio Educadora e no Jornal “A Ação”. O sonho ,para mim, só naquele exato momento é que tinha sido assassinado.
Certo que vinte anos depois perderíamos o George e aí, definitivamente, constatamos que caíra por terra um dos mais fortes desejos da minha geração, ver novamente reunidos “The Beatles”, após um dos mais trágicos dias da nossa história sentimental, aquele pavoroso 08 de Abril de 1970. A perda de Lennon, no entanto, nos feriu muito mais profundamente que o desaparecimento de Harrison. Um pouco por conta da forma violenta e imprevisível com que ocorreu . Um outro tanto , pela prematuridade com que lhe arrancou desse mundo turbulento , mal tendo ele tingido os primeiros fios de cabelo com as águas dos quarenta anos. Mas principalmente por conta importância artística de Lennon. Ele sempre representara o contestador, o revolucionário, o transgressor do Fabulous Four. Ringo sempre fora mais intimista, George o mais tranqüilo e espiritualizado e Paul o mais certinho . Lennon trouxera não só suas poesia e música, mas untara os Beatles de atitude. Na verdade ele saltava à nossa frente como o artista mais verdadeiro, aquele que carrega consigo não só a capacidade poético-musical, mas principalmente a potência transformadora. Todo o sonho acabou virando pesadelo naquele 08 de dezembro de 1980, na calçada do Dakota, defronte de um Central Park triste e estarrecido.
Neste mundo afeito a cangapés e bundas-canastras não tem sido promissor o destino dos pacifistas. Quantos outros tiveram fim semelhante ? Gandhi, Cristo,Chico Mendes, Zumbi, Zé Lourenço, Luther King ... Como compreender a alma humana :meio anjo-meio demônio, meio cordeiro-meio lobo? O que Chapman, na verdade, conseguiu dizimar naquela sangrenta noite de inverno? Acredito que feriu de morte a esperança nos destinos da raça humana. Como compreender a sanha iconoclasta de se destruir aquilo que mais se ama? Em troca de quê? Um registro nos livros de história? A possibilidade de escrever o nome eternamente junto daquele que mais se admira, mesmo através dos piores impulsos e dos meios mais abjetos? Qual o futuro desta sociedade consumista , onde todos são transformados num mesmo amálgama ,sem qualquer individualidade e a fama fugaz e efêmera é perseguida sem qualquer escrúpulo?
Trinta anos nos dão o distanciamento necessário para entender os ínvios caminhos pro que trilhamos. Em minha casa eu adoro os Beatles e sou seguido na minha adoração por meus filhos e minha neta: três gerações ! Como isso é possível? Hoje que os sucessos não têm qualquer durabilidade! Axé, Lambada, Pagode, Banda de Forró se sucedem e são engolidos rapidamente , digeridos e excretados para a fossa do esquecimento, numa velocidade estonteante. O que imprime eternidade à música dos Beatles, quarenta anos depois da dissolução da banda? Como os faraós ao construir as pirâmides, eles edificaram sua obra para a imortalidade, intuitivamente conseguiram imprimir uma impressionante atemporalidade às suas músicas. Esculpiram em aço , em tempos de modernidade líquida e gelatinosa. Após a separação, todos fizeram carreira solo sólida e brilhante, mas nem de longe conseguiram alcançar a refulgência da banda o que terminou provando um contra censo físico : a força resultante do grupo era infinitamente maior que a soma das diversas forças artísticas separadas.
Ao contrário do previsto, o Sonho não se dissipou naquele oito de abril de setenta e nem foi trucidado dez anos depois na calçada do Dakota. O Sonho está vivo e continua sendo sonhado e embalando dias e noites mundo afora. O Sonho de Lennon virou epidemia e ele , como uma armadura, protege-nos , impedindo que a realidade não nos esmague.

J. Flávio Vieira

Vida a dois - Emerson Monteiro

Das estatísticas recentes, e estatísticas viraram instrumentos que norteiam muitas ações desses tempos complexos, alguns números sacolejam as sólidas bases de qualquer cidadão pacato e desinformado, a exemplo do que ouvi na semana que passou, que, minuto a minuto, quatro senhoras casadas são espancadas por seus esposos em um dos lares deste País continental. Isto é, de 15 em 15 segundos se comente um delito, agressões brutais, estúpidas e inconcebíveis em qualquer mundo dito civilizado.
Ainda se ouvia, de épocas românticas, que em mulher não se bate nem com uma flor, para, noutras palavras, dizer que ninguém é saco de pancada, muito menos as representantes do belo sexo, quando, de supetão, rasgaram-se as empanadas da hipocrisia machista e a realidade fria dos números explodiu qual ferida interna de um corpo doente, desse mundo social cheio de aleijões e atrasos.
O desrespeito para com os semelhantes caracteriza fases lastimáveis da vida em grupo, impondo atitudes agressivas e a repressão do próprio sistema, contudo tratar os sintomas sem curar as origens do mal apenas mascara os conflitos, escondendo causas e multiplicando riscos posteriores.
Por isso, há mesmo que se buscar, no íntimo das pessoas, as razões virulentas de tanta perversidade, que constrangem os padrões da normalidade. Não dá mais para fingir que o problema pertence aos outros. Os pactos ora existentes reclamam doses maiores de sinceridade e mudança nas práticas contínuas que parecem longe de acabar.
As ausências de comunicação entre os que se casam demonstram quase nenhum compromisso de amizade e companheirismo, talvez, quem sabe?, só interesse material, sexual; daí, carências de religiosidade e vulgarização da maldade sujeitam a levar ao seio da família, porto seguro das tradições culturais e educativas dos filhos, durante todo tempo. Viver em comunidade começa no âmbito familiar, célula-mãe das sociedades, conceito repetido e pouco exercitado.
Quando um homem e uma mulher resolvem firmar os laços puros do matrimônio, deve haver responsabilidade, existir valores mínimos para formar o lar, sonhos de paz, apoio mútuo, trabalho, satisfação pessoal, experiências profissionais somadas, união de princípios; fora disso inexistiriam justas condições de constituir um casal no sentido pleno.
Assim, face aos acontecimentos desta hora crítica, apenas persistirá a esperança de transformar este chão comum onde vivemos e trazer de volta paz aos lares, mediante o carinho autêntico e valioso de quem acredita nas bênçãos que nascem dos laços sagrados da justa felicidade entre os casais.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A inteligência alimentar - Emerson Monteiro

Nós humanos buscamos um jeito bom para equilibrar os elementos da natureza, para achar nisso as fórmulas ideais de viver em harmonia, no mínimo face ao mundo que nos rodeia. Arrumamos defesas que facilitem passar os dias longe dos conflitos que engolem as pessoas. Aqueles mais sabidos rompem obstáculos intransponíveis, exercitando a capacidade que possuem de cruzar as situações e abrir margens e alternativas. E os alimentos que ingerimos também se enquadram nessa ginástica, nestes tempos industriais que desafiam pela propaganda, marcas oferecidas em cada esquina, por meios ardilosos de pouco critério. A luta é fugir das regras químicas de comer o que aparece na nossa tela sem qualquer chance de pensar de outro modo.
O resultado desse totalitarismo alimentar em que se transformaram as ofertas do que sobrou para comer implica, agora, numa aventura radical de saúde fragilizada, corredor lotado nas entradas de um sistema único de saúde assoberbado e filas intermináveis à porta dos consultórios médicos.
Há países de seculares tradições que mantêm a rigidez dos hábitos de alimentação como quem cultiva verdadeiras religiões de sobrevivência. São povos educados nas linhas rígidas e familiares impostas pelos ancestrais e pela comunidade. Veem os costumes quais peças-chave de preservação da natureza a partir da criança e do jovem, impondo respeito às leis das origens milenares, na intenção de uma medicina preventiva. Acreditam serem doenças os sintomas do desequilíbrio imposto ao sistema orgânico através de hábitos errados, guardando, com isso, a conservação da ordem química do corpo à medida que evitam cair em transformações equivocadas e fora de fundamentos conhecidos, inteligentes.
Na fase ocidental dos modos industriais, no entanto, o lucro prevalece acima de tudo, a todo custo, comer casca e nó, levando de eito o que surgir pela frente. As florestas que o digam, após a febre destruidora das reservas a pretexto de exercitar práticas de mercado da madeira e produção de carne, depois seguida dos agronegócios, da soja que domina a colonização amazônica.
Comer e beber hoje se tornam, a cada ano, em atividades de risco jamais imaginado pelos pessimistas. A mesa virou campo de prova de sobrevivência; os pratos, bombas-relógios de que não conhecemos os termos de finais para na saúde. Nossos avôs, às refeições, adotavam a expressão “peixe é que morre pela boca”. No entanto a humanidade parece haver se transformado num rumoroso cardume de variados peixes expostos aos caprichos das bolsas de mercadorias, vagando tontos na maré dos acontecimentos imprevisíveis da civilização.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Severo e a Guerra Can-Can

Semana passada, Matozinho parou literalmente para acompanhar , pela TV , a guerra contra o tráfico nas favelas cariocas. O súbito interesse pelo assunto tinha sua raízes em razões modernas como o fascínio pela mídia, como em qualquer outro lugar desse mundão de meu deus, mas , também, em outras bem mais profundas e históricas. Por incrível que possa parecer, o Morro do Alemão, a Penha, a Rocinha são fronteiriços a Matozinho. É que a miséria e a desassistência do estado tornam todos viventes muito próximos e parecidos. A pobreza, como a morte, irmana e iguala muitos num estranho socialismo . Claro que a pobreza é produzida para alguns e a morte, muito mais igualitária, reúne todos numa mesma lápide, no mesmo nada, no mesmo esquecimento. Um outro fato a aproximar Matozinho dos cariocas: incontáveis matozenses vivem nas favelas do Rio, no comércio ambulante, como crediaristas. De alguma maneira, pois, a Guerra Civil carioca mexia diretamente com a Vila e sua economia.
As operações militares envolvendo Polícias Militar, Civil, Federal e o Exército, remeteram, também, imediatamente, a Vila a períodos conturbados da sua história. Os mais velhos lembraram rapidamente dos tempos do velho Pedro Cangati, aí pelos idos de 1950. Pedro fora chefe político local e desencadeara uma verdadeira guerra contra uma família de Serrinha , cidade vizinha : os Cangulo. As primeiras desavenças começaram por conta de briga no espaço político da região e acirraram-se ainda mais por contra dos Cangatis e Cangulos serem parentes próximos. A Guerra Cangati-Cangulo ficou conhecida como Can-Can. Hordas de pistoleiros campeavam naquelas brenhas , de lado a lado, e , em menos de dez anos, já se computavam mais de cinqüenta mortes . A vendetta acometia quase que proporcionalmente as duas famílias envolvidas. Com o passar dos anos, a questão se foi arrefecendo uma vez que a cara manutenção dos dois exércitos acabou por derrotar financeira e politicamente os dois contendores.
Pois bem, amigos, começamos pelas beiradas, como quem come mel quente, saído da passadeira. Imaginem a aflição de um destacamento policial, em Matozinho, em plena Guerra do Can-Can . Eram meros cinco soldados , armados de espingardas soca-soca e jardineiras, totalmente despreparados e mal acostumados, postos a enfrentar exércitos de jagunços perigosos e peçonhentos. Entre estes, havia uma folclórica figura , conhecido de todos: Severo. Apesar do nome de soldado espartano, Severo não fazia por merecê-lo. Franzino, magricela, alto, parecia um “Mané-Magro de Jurema”. Salvo ,por pouco ,de uma tísica na adolescência, Severo carregava aquele corpo de mamulengo, meio desengonçado. Sentara praça na polícia por mera falta de opção. Já perto da aposentadoria , dizia-se, a boca miúda e grande, que nosso militar, durante toda sua carreira, jamais prendera ninguém. Evitava enfrentamentos e operações em que tivesse que fazer campana sozinho. Pelo soldo pequeno que recebia, compreendia-se a dificuldade de atos de patriotismo e heroísmo exacerbados.
Quando apelado a exercer suas funções repressivas, Severo dava sempre um jeito de chegar atrasado. No máximo, tentava uma psicoterapia á distância, tentando convencer o bandoleiro a se entregar, a acompanhá-lo, mas sempre mantendo distância regulamentar. Do seu lado, ele usava técnicas de marketing, mostrando aos circunstantes a dificuldade da sua função, informando que se lá fosse e desse uma surra no acusado, a própria sociedade o condenaria, os direitos humanos viriam puxar sua orelha. A conversa se prolongava até que o baderneiro, ou bêbado resolvesse ir embora. Mesmo assim, Severo o acompanhava, sempre à distância, dando ordens de “Teje Preso”, até que o malandro se escafedesse. Depois, o soldado fazia uma relatório informando aos superiores a impossibilidade da prisão, uma vez que ao sentir seu poder de fogo, o desordeiro , com medo, fugira em desabalada carreira.
Matozinho, diante das operações dramáticas, no Morro do Alemão, remeteu-se, diretamente à mais heróica façanha do nosso Severo. No auge da Guerra Can-Can, alguns pistoleiros dos Cangulos, após uma chacina em Bertioga, se acoitaram numa casa estrategicamente construída na subida da Serra da Jurumenha. O lugar era militarmente privilegiado, num alto, com ampla visão em 180 graus de todo o horizonte. A polícia de Matozinho foi chamada para enfrentar os bandoleiros e, ao se aproximar do local, perceberam, claramente, que se tratava de uma tarefa perigosa e dificílima. Os facínoras atiravam sem parar com rifles papo-amarelo. No meio do destacamento estava nosso corajoso Severo que, mais que rapidamente, percebeu a enrascada em que estava metido. Mal chegaram no pé do morro, sob fogo cerrado, viram ser alvejado um pobre agricultor que ali passava, tardizinha, de volta da roça. Como Severo mesmo comentou: “a bala bateu no homem e ele caiu de cu trancado, nem estrebuchou”.
Severo, então, resolveu, num átimo, estabelecer a tática que mais havia treinado durante tantos e tantos anos: a retirada. Aproximou-se , se arrastando, do colega mais próximo , em meio ao ziguezaguear das balas e informou:
--- A coisa tá difícil ! Sustentem o fogo que vou buscar reforço !
Ao anoitecer, ainda sem poder tomar chegada, os soldados viram, por fim, os pistoleiros fugirem sem deixar rastro. Foram escapando , um a um, pelas portas dos fundos. Os que ficavam, continuavam a atirar em diversas janelas, dando a impressão que o batalhão ainda estava todo lá em cima. Por fim, o último escapou e só ao amanhecer o destacamento deu pela fuga da tropa. Já era muito tarde !
Em todo episódio, só houve uma baixa: a do agricultor. Sim, houve ainda um ferido leve: Severo ! Ele cortou o dedo enquanto, sentado no chão, escondido no canavial, vizinho à casa, descascava cana para chupar, enquanto as balas , por cima, cortavam as folhas e ele esperava por um reforço que não chegava, talvez porque não existisse e , mesmo se houvesse, sequer havia sido acionado. Foi garapa !

J. Flávio Vieira

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quem vem para a beira do mar - José do Vale Pinheiro Feitosa



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Vó dava uma bicada na sua tigela de café e com um olho de luz das galáxias transfixava toda a existência. Café torrado com rapadura no caco de um tacho de barro. Café moído na força muscular. E Vó tomava o caldo preto daquela semente de chão. Os grãos de Kafa, no planalto da Etiópia, chegaram até a tigela de Vó e ela dizia:

Não vá para a beira do mar.
Não vá.

E num descuido de trilho, subi num comboio nas altas madrugadas enquanto Vó dormia. E o bicho foi torando os pilares das montanhas, atravessou os vales, serpenteou rios, riachos e levadas. Fui me largando pelo mundo, as manchas doces deixadas pela garapa que caiu pelos cantos da boca no meu bucho sumiram no tempo. E, Vó, nunca mais ouvi teu estalo de beiço sugando o café, a cada intervalo entre o sabor e a voz tão imensa quanto tudo que a Ibéria se espalhou nos sertões desta América.

Não vá para a beira do mar.
Não vá.

Mas vim Vó. Eu vim. Eu estou aqui na beira do mar. Na beira do mar com as ondas e as sereias nas pedras. Na posse de liras prisionais.

Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar

E quando a madrugada rompe aqui na beira do mar, estou tão amplo como os horizontes ininterruptos. Se pego um rumo para me afastar eu vou, muito longe eu vou, mas como uma onda eu volto à beira do mar. E pego a andar na areia do mar.

Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar
Andei pelo mar, andei
Nas águas de Dona Janaína

Vó e tua tigela era branca ou creme? Era creme ou marrom. Qual era a cor da tigela de barro de Vó? Era de barro, como eu era de barro. E nem sei a minha cor neste levante de dia e nem as ausências de poente das ondas.

A onda do mar leva
A onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, meu bem
Não volta nunca mais

Vó será que tu já foi? Já voltou? Ainda está naquela porta de casebre? Eu espero que os filhos de Maria, tua neta, já não se assentem na porta de um casebre. Como tu, Vó, na porta do casebre, tua tigela de café de Kafa. E não fui mesmo para a beira do mar prá nunca mais voltar?

Os três cavalos - Emerson Monteiro

O escritor cearense Gustavo Barroso, que conheci no início da década de 60, em Crato, conta num apólogo, gênero literário de animais e coisas ganhar personalidade e se manifestar como seres falantes, que viajavam três cavalos por longa travessia de região desconhecida; um cavalo velho e dois potros fogosos.
Andaram que andaram até chegar a uma bifurcação de estrada que lhes deixou na dúvida quanto a que rumo tomar para seguir até o lugar que procuravam.
Perante a dúvida, sem atinar no mínimo sobre o palpite ideal, os potros começaram discussão demorada em torno da melhor alternativa. Cada um indicava a opção contrária do outro, estabelecendo-se acalorada divergência. Os ânimos esquentaram e nenhuma conciliação parecia solucionar o impasse.
Enquanto isso, o cavalo velho, silencioso, apenas observava o desenrolar dos acontecimentos, sem tomar qualquer partido. Após analisar as razões dos dois camaradas, aceitou, no entanto, de ambos a certeza, e, dirigindo-se a um deles, asseverou:
- Já que acha certo o caminho da direita, siga nele. Quanto ao senhor, - falou ao outro, que tem a certeza de que o caminho da esquerda levará aonde queremos, siga nessa direção.
E ainda ponderou: - Quanto a mim, dotado de menos reservas físicas para aventuras, permanecerei à espera do que seguiu o lado errado, porquanto haverá de passar de novo aqui neste lugar.
Assim se verificou. Depois de horas, aguardando deitado à sombra de algumas árvores, o cavalo velho assistiu voltar um dos animais, o que tomara o caminho perdido. Vinha trôpego, esgotado; suava em bicas, latanhado de espinhos e coberto de poeira.
- É verdade, aquele potro estava certo, - falou desconfiado e ofegante. – O caminho que seguiu por certo levará aonde pretendemos, uma vez que provei não ser certo o que escolhi.
Nessa hora, experiente e descansado, o cavalo velho sentenciou: - Bom, agora sabemos com clareza qual nossa orientação. Enquanto isto, o senhor aproveitará para descansar um pouco, que logo retomaremos a caminhada.
Gustavo Barroso, por seu turno, concluiu a narrativa resumindo que os que erram ensinam mais do que os que acertam, porquanto sempre voltam para reiniciar as tarefas equivocadas, a demonstrar seus equívocos. Os que acertam estes quase nunca retornam para contar das suas vitórias, levados que são para longe, nas asas imensas do sucesso.

sábado, 27 de novembro de 2010

Idolatria primária - Emerson Monteiro

Tanto que se dá valor a coisas irrelevantes nesta vida que ao encontrar aquilo que na verdade pede atenção ficam as pessoas meio desconfiadas, achando que esqueceram o que de importante haveria e é essencial para levar aos bolsos e dotar a vida. São os efeitos colaterais da distração impostos pelos instrumentos modernos, vícios inconvenientes da ilusão.
A realidade mesma, a que merece respeito e ocupação dos sentidos, quantas vezes deixamos de lado, o amor aos filhos, aos pais, ao marido, à mulher, ao próximo, que se tornaram assuntos vulgares, matéria das novelas sucessivas da televisão, reino vasto das emoções enlatadas...
Para onde dirigir a visão, o indivíduo cumpre determinações do mercado de consumo, até em termos de crença, que, para muitos, raia campos de mera credulidade, preenchimento das fichas do invisível a preço do imediatismo.
No entanto a fome de justiça e a fé continuam rasgando as entranhas dos tempos e dos costumes. Aceitar o desconhecido precisa de consciência, pois a dureza do solo cotidiano assim exige. Essa atitude conformista de engolir as pílulas douradas do esquecimento da realidade jamais satisfará o desejo de equilíbrio que nasce com a gente e sobreviverá para sempre nos demais.
Preencher o vazio apenas com farrapos desnecessários anestesia durante algum tempo, contudo a cólica volta mais forte na sensação de inutilidade e perda de mínimas condições de amor. Disso anda cheio o mundo, homens impacientes, angustiados e agressivos, sem responder ao para que viessem e sumiram longe na próxima curva, fora de ao menos oferecer outros meios e exemplos aos que os aguardaram, na solução dos dramas existenciais elementares.
Nesse apetite agoniado de música nova os dentes mastigaram fel de pedra e poeira, disparos sem qualquer nexo revolucionário a não ser a intenção de ferir os céus da boca das feras inexistentes da droga, no padrão oficial da vontade.
Correm pelas ruas ventos de medo na forma dos ídolos vagos de quaisquer significados. Gente complexa, desavisada no estágio das consequências do que querem, e fazem lama onde antes havia ar puro, água limpa e esperança. Isso constrange, revira de dentro as barrigas famintas de outros sonhos que não fossem tão só de desespero e temor.
Os tais batalhões de gente agressiva pelo simples gesto de ferir, vingar o que ninguém sabe quando, embalados na ira dos atores no palco gigantesco das florestas das cidades artificiais produzem massas, batatas estragadas e luas cinzentas, que ainda brilham no espaço desses turnos assustados.
Silenciosas, gerações inteiras fixam os olhos nas imagens de terras estranhas, senhores de cicatrizes e tatuagens escuras, vestes andrajosas, garras afiadas, numa praia deserta e maré de esperas insistentes. Só.
As carcaças de barcos antigos projetam suas sombras no pôr do sol envoltas nas águas verdes que estiram os dedos às várias outras estações perdidas nas praias dos mundos enigmáticos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Castelo de cartas

Entre uma e outra partida de “Buraco”, o menino toma o baralho entre as mãos e, com delicadeza e paciência, começa a erguer o seu castelo de cartas. Os movimentos são leves e cuidadosos, em slow motion. Ele percebe, claramente, que basta um movimento mais brusco, uma expiração mais profunda para que venha a implodir sua sutil arquitetura. Findo o trabalho, o castelo ergue-se impávido, à beira da mesa, meio desengonçado, com um ar de vitória contra a efemeridade e às dificuldades inerentes ao percurso. Como na vida, a argamassa que une todas as peças é a instabilidade, ela é o fio condutor que cola as cartas, aguardando a esperada e próxima lufada de vento.
Pois é , amigos, apesar da aparente filosofia barata do primeiro parágrafo, é sobre castelos de cartas que desejo falar nesta croniqueta de sábado. Nestes dias, temos todos nos chocado com as fortes imagens que saltam da TV : uma verdadeira Guerra Civil que irrompeu no Rio de Janeiro. Carros queimados, tiroteio, tanques subindo morros, correria, confronto entre policiais, exército e bandidos. Mais de trinta mortes computadas até hoje. Como explicar que a bela aquarela da Cidade Maravilhosa teime em tingir-se de rubro, nesta semana? Tínhamos o purgatório da violência diária, em módicas prestações, que macula todas as metrópoles brasileiras. Não nos acostumamos, porém, com esta tragédia por atacado, num país que se vangloria ser isento de guerras e confrontos mais sangrentos. O paraíso e o inferno sequer imaginávamos que fossem tão fronteiriços.
Mas vamos refletir, um pouco, sobre a arte de empilhamento de cartas, enquanto as balas varam os horizontes cariocas e, como sempre, a população mais pobre se vê, incomodamente, metida no fogo cruzado. A urbanização das grandes metrópoles brasileiras foi um reiterado crime cometido contra a população mais pobre e desfavorecida. Essa classe sempre viveu próximo ao centro das grandes vilas, pois ali conseguia emprego e, pela dificuldade de transporte, sobrevivia em cortiços e “cabeças de porcos” . À medida que as cidades iam crescendo e prosperando tangiam os pobres para os morros e favelas. Alijava-os da vida urbana, sem nada lhes dar em troca. O Estado, por séculos, só subia os morros com a polícia. A única política social era a repressão. Nada de saneamento, de energia, de escola, de postos de saúde. Emebelezavam os cartões postais das cidades e escondiam suas chagas sociais em prisões, favelas, sanatórios, cemitérios. No Rio, o primeiro projeto social em uma favela já aconteceu , pasmem vocês, há menos de vinte anos. Com o aumento crescente da desigualdade social , as favelas cresceram e se multiplicaram. E hoje, à histórica ação da elite brasileira de imprensar a favela, se opõe uma reação bem mais poderosa , contrariando a segunda Lei de Newton .
Nos anos setenta do século passado, o tráfico aportou nas favelas. Foi recebido de braços abertos. Ele passou a fazer o papel que o estado brasileiro nunca fez. Deu emprego, envolveu-se em movimentos sociais como futebol e Escolas de Samba, apoiando-os maciçamente e, mais, vendendo sua mercadoria justamente à elite opressora que se repoltreava em mansões a beira mar. Esta atividade, como era de se esperar, teve enorme capilaridade comunitária. E mais: organizou-se invejavelmente, enquanto o estado brasileiro, intencionalmente mantinha-se frouxo e desorganizado para facilitar os trambiques, a corrupção desenfreada. O tráfico, como uma máfia, agiu politicamente, comprando políticos, elegendo deputados, subornando a polícia e autoridades. Claro que, como num castelo de cartas, este equilíbrio é instável e , periodicamente, desmorona como acontece no Rio agora e como ocorreu em 2006 em São Paulo que se ajoelhou sob o julgo poderoso do Marcola e do PCC.
Por que desmorona o Castelo? Simplesmente porque, amigos, existe um acordo tácito entre o Estado e o Crime Organizado, com concessões de lado a lado, favores dispensados e trocados. De repente, o Estado cai na loucura de imaginar que é dono da situação e , abestalhado, pensa que existe lei . Talvez tenha até ciúmes da organização poderosa do Crime. Aí, o vento sopra por entre as cartas e o castelo rui. Instala-se o caos, as ruas se tingem de sangue e há baixas de todo lado. Mas não há vencedores. Aos poucos recomeçam as mesmas negociações, há sessões e concessões de parte a parte e as mãos ensangüentadas começam a de novo edificar o castelo implodido. Um Mito de Sífiso tupiniquim.
Temos dois países em um só. Dois Estados: o da Praia e o do Morro. O da Praia é minimamente organizado para as classes que o apóiam. O do Morro é profundamente organizado e politizado e tem plena consciência que a sua infelicidade não é obra do acaso, da fatalidade. Lá de cima dá para observar perfeitamente os conchavos e as negociatas. O Morro tem plena consciência da instabilidade do Castelo de Cartas e sabe que as cartas foram feitas para se jogar.

J. Flávio Vieira

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Consumo consciente - Emerson Monteiro

Depois da Revolução Industrial, dois séculos atrás, que as sociedades se veem expostas aos caprichos do comércio, principal distribuidor dos bens produzidos nas fábricas. Da necessidade em vender a produção criaram-se motivos feitos pela propaganda, o que virou ciência e arte, denominada mercadologia, ou “marketing”.
A impulsão nas vendas ultrapassa regras corretas do anseio natural das pessoas, provoca faixas mentais abstratas e gera seres dependentes dos supérfluos, ou virtuais, como hoje são denominadas necessidades artificiais criadas pela propaganda.
Alguém disse certa vez do quanto são exóticas as criaturas humanas, pois gastam o que não têm para adquirir coisas de que não necessitam, visando impressionar a quem não gostam. Isso indica bem o momento da oferta e da procura, onde bilhões se atropelam no afã de alimentar ilusões estabelecidas pelas mensagens subliminares contínuas dos meios de comunicação de massa, sugando energias vitais à sobrevivência.
O gesto de comprar exercita o poder para deslocar os objetos da loja para casa, na forma de mercadorias que alimentam o sonho da dominação, atitude criada por máquinas e vendida pelas indústrias.
No entanto, também põe sob risco a vontade das pessoas, a saúde, a moral, a integridade física, tempo e liberdade. Quando, por exemplo, o consumo desperta vício de bebidas, cigarros, chocolates, há flagrante troca desonesta da saúde na doença.
Ao oferecer revistas, filmes e jornais que fazem a apologia dos objetos do desejo, algo de irreal passa a girar na personalidade dos adolescentes, o que ocasiona consequências imprevisíveis, às vezes trágicas, de resultados ainda inavaliáveis.
Porém aquilo que merece relevância na aquisição exige critérios que transformam sorte em azar, vez que milhões perdem o que disso apenas uma minoria se beneficia, no final do processo, os empresários.
Contudo, diante da onda avassaladora que só visa lucros nos balcões da atualidade, surge um movimento defensivo, provando a importância de uma seleção prévia do que se consume por instinto comercial.
O envenenamento do corpo através do açúcar, produtos químicos, aditivos, componentes químicos inorgânicos hostis ao corpo, no uso, materiais tóxicos e de fontes duvidosas acham-se sob suspeita. A humanidade precisa do senso crítico nas aquisições dispensáveis e de pouca responsabilidade para consigo mesma, cliente principal do poder mercantilista. Por isso, a consciência do que fazer cabe em todo lugar.

Uma Biblioteca em Cada Comunidade

O projeto Uma Biblioteca em Cada Comunidade foi iniciado no dia 15 de outubro, às 19h00, no Pólo de Atendimento do Bairro João Cabral, pelo Prefeito de Juazeiro do Norte Manoel Santana e Secretário de Cultura Fábio Carneirinho. Na oportunidade foi inaugurada a primeira Biblioteca Comunitária denominada de Padaria Espiritual Enock Rodrigues, com um acervo de mais de três mil livros.
“Esta será um protótipo para 19 bibliotecas que serão criadas pela Administração até o Centenário de Juazeiro. A Secretaria de Cultura pretende, até o final do ano, criar mais seis, nas seguintes localidades: bairros Vila Nova, Frei Damião, Parque Antônio Vieira, Sítio Gavião, ONG Juriti e Socorro”, enfatiza Franco Barbosa, Assessor Técnico da Secretaria de Cultura, autor do projeto.
Os livros foram doados pela Fundação Enock Rodrigues, através de Elmano Pinheiro Rodrigues. A seleção do acervo para cada comunidade está sendo realizada pela Empresa Junior da Universidade Federal do Ceará, com os alunos do curso de Biblioteconomia. Uma parte das 12 toneladas de livros doados pela Fundação será destinada ainda aos sítios Malhada e Assentamento 10 de Abril, em Crato, como também, às comunidades de Barbalha, Antonina do Norte, Mauriti e Caririaçu.
Neste sentido, Fábio Carneirinho solicita a todos doação de livros para as próximas bibliotecas, não importa a quantidade, pode ser um livro e pode ser uma caixa, ou mais. Dê um presente a Juazeiro neste Centenário.


Franco Barbosa
Assessor Técnico
Secretaria da Cultura
Juazeiro do Norte - Ce
(88) 3511 1999 - 8804 0715.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Objetos do desejo - Emerson Monteiro

Celulares, computadores, automóveis, televisores, casas, aviões, armas mortíferas, novelas e outros sonhos de consumo desta era de aço, plástico e substâncias poluentes, formam a dinâmica das horas cheias do frenesi impaciente de que quase ninguém consegue escapar, da ansiedade por novos equipamentos de uso contínuo a preços módicos, do despertar ao adormecer, viagem elétrica diária de uma antena a outra, quais voos de aranhas tontas, desencontradas. Serão máquinas incandescentes, unção dos metais com os nervos das orelhas, narinas, dos lábios, numa velocidade estonteante rumo do mesmo nada original das aventuras de antigamente.
Essa proximidade do homem com os objetos guardaria, por isso, ligação estreita do sujeito e suas vinculações junto ao mundo arredondado. Resumem os grandes filósofos tudo ser só energia em movimento, ainda que aspectos concretos imponham respeito e dúvidas, na relação com o alimento abstrato do pensamento de materialistas que querem ver ou pegar cada coisa.
A juventude, porém, questiona as cogitações simples dos filósofos. Os moços querem viver a todo custo experiências da civilização que herdaram, nos filmes, livros e máquinas reduzidas made in China. O Brasil chegou agora à marca de possuir celulares equivalentes ao tanto dos seus habitantes, em números absolutos.
Jamais a humanidade inteira atingiu tamanha capacidade física de se comunicar. No entanto o quadro preocupa o sossego e o falado progresso. Margem enorme de meios ainda representa pouco para aquietar o furor dos dramas individuais, pois as pessoas transferem às outras práticas e limitações senis do que haveremos de vencer depois, imposto do caminho da felicidade.
Nunca se fotografou tanto, se filmou tanto, gravou tanta música, quanto nesta época, e os frutos parecem não corresponder ao nível da tecnologia obtida pela raça humana.
O desejo peca na própria satisfação do enigma exigente dos consumidores, que, por mais busquem atender aos corações apaixonados, esbarram nas impossibilidades e angústias de um mundo vazio, atitudes desencontradas, guerras e traumas.
Contanto que forneçam esperanças novas, as tais maquininhas desta hora disseram muito pouco daquilo que se aguardava das matemáticas e pesquisas do homem civilizado. Há, sim, reservas maiores no desconhecido para serem aprimoradas que mostrarão o rosto de dominar os vícios e entrar na outra face da história, quando as marcas do egoísmo sumirão das telas, sombras apagadas pelas luzes da perfeição verdadeira.